Cinco (inacreditáveis) anos atrás eu escrevi sobre “Lucky Man”, o livro autobiográfico de Michael J. Fox (ver IMDB), no qual ele contava como um garoto do interior do Canadá se tornou um astro, e como a descoberta da doença de Parkinson, na virada dos anos 1990 mudou a sua vida.
Pois eis que eu encontrei, na Feira do Livro de Porto Alegre 2009, o livro que, de certa forma é a continuação daquele. O título, e a mensagem é: ”Um otimista incorrigível” (“Always Looking up: the adventures of an incurable optimist”, no original, em inglês).
Não é exatamente uma continuação pois, enquanto aquele é estritamente biográfico, este se propõe a refletir sobre a relação do J. Fox com a doença. E não é nada de “ó, estou morrendo, pobre de mim”. Ao contrário.
Como o próprio título diz, o livro é otimista. Mostra como o ator encara, vive e confronta a doença diariamente. A organização dele também não é cronológica, mas em quatro grandes capítulos: Trabalho, política, fé e família.
Na introdução, ele fala da sua rotina com a doença, descrevendo em detalhes assustadores a luta diária para executar, sem o devido controle muscular, atividades corriqueiras como escovar os dentes.
Em relação a trabalho, ele conta como foi a mudança da vida de ator de filmes (como a trilogia De Volta para o Futuro) e seriados (de Caras e Caretas a Spin City) de sucesso para o de presidente de uma fundação que tem, como ele gosta de ressaltar, um único objetivo: fechar. A Michael J. Fox Foundation for Parkinson´s Research (Fundação Michael J. Fox para a pesquisa do Parkinson) foi criada com o intuito de incentivar pesquisas para encontrar a cura da doença. No dia que este objetivo for alcançado, ela fecha.
Na política, ele fala sobre o jogo de interesses que cerca a questão da pesquisa com células-tronco, principalmente nos Estados Unidos. Grande parte do livro, por exemplo, se passa no longo governo George W. Bush, que era contrário às pesquisas. A briga de bastidores, incluindo o episódio no qual ele foi acusado inclusive de fingir ter os tremores da doença para sensibilizar cidadãos e eleitores norte-americanos é um dos pontos mais interessantes do livro.
No que diz respeito a fé, além de falar de si e de sua visão própria de Deus, conta também de sua relação com o judaísmo, que é a religião de sua Tracy Pollan e seus filhos.
Na parte de família ele fala de seus pais, sua infância e “a grande viagem”. Também fala de Tracy, e seus filhos Sam, Aquinnah, e Schuyler e Esmée e de seus irmãos, principalmente K.C., com quem era muito ligado e quem acabou perdendo cedo…
Eu sei que é piégas, é um lugar-comum e tal. Mas Michael J. Fox merece ser admirado pela forma de encarar o mundo. Portador de uma doença degenerativa que muitas vezes acaba com o ânimo de qualquer um e mudou sua vida completamente. Mudou sim, mas acabar nunca. E, ao contrário do que talvez alguns pensem, o caso dele é bem grave. Não desistir e, mais do que isso, olhar sempre para o que se tem e o que se pode ter, nunca apenas para o ideal.
E, com o perdão do trocadilho, com pouco mais de 1.60 ele pode ser pequeno como um rato, mas é esperto como uma raposa.
Como o texto sobre o livro Um otimista incorrigível ficou grande, resolvi fazer um segundo post para as curiosidades sobre o livro e Michael J. Fox
A primeira:
Para os desavisados, Michael J. Fox empresta a voz para o Pequeno Stuart Little nos filmes do ratinho. Então, na foto ao lado, enquanto no fundo à esquerda, nós temos o Dr. Gregory House (sim, é o Hugh Laurie), na mão do menino temos Michael J. Fox. Curioso, né? Ok.. curioso e inútil.. rsrsrs…
A segunda:
Fox fez participações em séries depois que largou Spin City (onde foi substituido por Charlie Sheen). Achei este vídeo que mostra as melhores participações dele em Scrubs. Infelizmente não tem legendas, mas de qualquer forma dá pra ver os “tiques” da doença, que foram usados no personagem (que tinha transtorno obsessivo-compulsivo).
Por fim: saindo da votação que acabaria por eleger Barack Obama, em 2008, Michael J. Fox foi entrevistado por uma estudante de 10 anos. Nada demais se, ao invés de responder a última pergunta (sobre em quem ele tinha votado naquele pleito), ele não tivesse apenas aberto a jaqueta e mostrado a camiseta abaixo.
O detalhe é que a menina olhou para a camiseta sem reagir, e não por não ter achado graça… Como J. Fox logo concluiu, alguém com 10 anos em 2008 provavelmente jamais ouviu falar na trilogia, quanto menos entender o “trocadilho” do símbolo…
E ainda sobre a camiseta: no dia do anúncio oficial da vitória de Obama, em janeiro de 2009, eu
escrevi um texto no qual fiz (com – e a partir da – minha própria falta do que fazer) essa mesma brincadeira com o logo (clique aqui).
Michael J. Fox foi o entrevistado das páginas amarelas da revista Veja esta semana. Leia aqui a entrevista, (obs: a revista erra ao dizer que o livro lançado é a biografia)
Como destaque, eu achei fantástico o que ele disse sobre saber conviver com uma doença ou condição de vida incurável:
O mais importante é aprender a viver o momento. Tenho uma teoria: imagine uma pessoa doente ou que sofreu um acidente e vive com medo de que o pior cenário se materialize. Esse medo se torna uma obsessão que toma conta de sua mente. Se, por infelicidade, o pior cenário se tornar real, essa pessoa viverá o mesmo drama duas vezes. Claro que devemos ser realistas e aceitar as circunstâncias, mas acho que, mesmo diante de uma situação dramática, há muitos motivos para ter pensamentos positivos .
E na entrevista ele também lembra dos casos de Muhammad Ali (outro portador de Parkinson), Lance Armstrong e Christopher Reeve (que ficou paraplégico num acidente de cavalo), com quem conviveu muito nos últimos anos.
Na verdade, o aniversário foi quarta-feira passada, já é notícia velha. Mas, por questões de agenda, eu acabei celebrando entre amigos apenas ontem. Como era domingo de feriadão, nem todos os convidados puderam parecer(e nem por isso são menos especiais).
Foi ótimo, muito bom mesmo. Na mesa com alguns amigos de muitos anos (alguns com quase duas décadas de amizade) e uma muito recente mas, sem dúvida, já bastante especial.
É viagem, mas eu adoro “receber” amigos. Não é nem exatamente pelo aniversário, mas por encontrar algumas pessoas especiais na correria do dia a dia. (Acho até que eu já falei isso ano passado, ehehehe).
O ruim de fazer 31 anos é que, talvez por que a vida já está tomando um rumo e, claro, por ser com amigos de tempos, as histórias são sobre o passado e não sobre o futuro, hahaha.. E pior, não são questões de cinco ou seis anos atrás. Geralmente, dez, quinze ou mais. Lembrar de coisas e “tecnologias” que não existem mais, ou falar de como se fazia sem algumas coisas banais de hoje.
Não é nem que eu me sinta o Matusalém por causa disso, não. Ao contrário, isso serve para me lembrar que, ainda que ainda seja jovem, eu não cheguei aí ontem, hehehe.. Já estou na estrada faz um tempinho…
O 31° ano de vida foi incrível. Até diferente do 30°, que também foi muito bom, mas este foi um ano de amadurecimento de lados práticos da vida. Se nos 30 eu celebrava a conquista da tão buscada auto-estima, nos 31 eu celebro o encaminhamento da vida profissional, a possibilidade de colocar em prática toda teoria do meu potencial. Entre erros e acertos, acho que estou indo bastante bem.. Aprendendo muito, é verdade, mas bastante bem.
Os 32 (o ano que iniciou semana que vem e vai até a Feira do Livro de Porto Alegre de 2010) será, no melhor estilo “Campanha da CNBB”, o ano do lado pessoal. Sem descuidar do que eu conquistei até aqui no profissional, no pessoal (e sem descuidar da saúde), vou me focar no pessoal.
Sem teorias, sem porquês sim ou porquês não. Eu sei a direção, e o caminho eu vou encontrar.
Era isso. Este texto não tem a intenção de ter pé ou cabeça. É apenas um pequeno reflexo, balanço, do último ano. Aos meus amigos que estiveram presentes ontem, meu muito obrigado. A estes e aos que não foram (em parte por ser um domingo de feriadão) meu mais sincero “tamo aí galera!!”.
E, como já passou o dia da criança.. Feliz Natal pra todo mundo!!
Quando o Rio se candidatou para sediar as Olimpíadas de 2004, o slogan era:
Olimpíadas 2004: Rio candidato
… e uma brincadeira completava:
Olimpíadas 2060: o Rio ainda tenta!
Ontem, vendo a decisão do COI, eu achava, como a mídia brasileira chegou a afirmar, que Chicago fosse a favorita. Quando a cidade americana, berço de Barack Obama, foi a primeira eliminada, eu pensei: “ôpa.. êpa.. peraí..quem sabe? ? ?”
As razões eram simples. O COI sempre procura alternar suas sedes. 2008 foi em Pequim (talvez a cidade mais próxima de Tóquio possível, considerando as com envergadura olímpica) e 2012 será em Londres (ridiculamente perto de Madri). (Como disse “auspiciosamente” um amigo meu, Tóquio ainda tem a desvantagem de ser longe pra caramba!!).
Pois o Rio ganhou. O Rio de Janeiro teve uma sexta-feira baiana, mas aqui no sul o dia foi praticamente normal. Via twitter e na imprensa geral é que foi possível ler muitas pessoas bradando o apocalipse “olimpíadas da roubalheira”, “lugar de olimpíada é na Europa”, “olimpíadas apenas maquiam os problemas do Brasil”, “arrependei-vos, aí vem o Paulo Coelho de ponta-cabeça!”.
Ok, quanto ao último, eu concordo.
Mas de resto acho que é síndrome de vira-lata. Vai ter roubalheira? Com certeza vai. Tanto na preparação para os jogos de 2016 quanto na já confirmada Copa de 2014. A questão é: se não houvesse jogos nem Copa, também haveria roubalheira.
Eu acho que o sentido das duas conquistas está no fato de que o Brasil tem condições de sediar eventos deste porte. Segurança? Não sei. Mas infra-estrutura, se não tem, a FIFA e o COI confiam que terá. Além, é claro, de um peso político já mais relevante no cenário mundial.
Eu não estou esquecendo do tráfico de drogas do Rio de Janeiro, das chacinas e da falta de segurança. Eu só acho que se for pra esperar esses problemas se resolverem para fazer algo deste tipo, fecha o Rio de Janeiro por que isso não vai acontecer.
Não estou dizendo que agora tudo vai dar certo, o Brasil vai entrar no Primeiro Mundo e não-sei-o-que. Estou dizendo que dez anos atrás, por exemplo, o Brasil sediar uma olimpíada era motivo de piada. Hoje é realidade.
Eu acho que os que gostam de reclamar têm que mudar seu ponto de vista. Não está bom? Não, não está bom. Mas está melhor do que nunca, e, ainda que por caminhos tortuosos, a tendência é melhorar.
Até parece que os jogos serão amanhã… Não, serão em 2016. Eu estarei às portas dos 38 anos de idade. O país será outro, nós seremos outros, o esporte brasileiro será outro. (O problema é que o presidente, se tudo se encaminhar como está, será o mesmo, de volta).
Falando em esporte. O valor que os jogos podem ter para o desenvolvimento do esporte brasileiro são incalculáveis. Copa do Mundo é futebol, e de futebol o Brasil vai bem.
Agora, esportes olímpicos o Brasil vai mal. Tirando o vôlei, vela, judô, atletismo (algumas vezes) e uma ou outra coisa eventual, vamos muito mal. E esporte é cidadania, é saúde, é educação, é auto-estima. Por que não acreditar que temos, ao sediar uma olimpíada, a chance de gerar uma onda de investimentos em esporte que depois se perpetue? A partir do momento que começar a dar dinheiro não para.
Foi assim com o vôlei nos anos 80, mas não foi assim com o tênis na era Guga Kuerten. Aí nós já temos um bom e um mau exemplo. Temos 7 anos até 2016, e eu prefiro acreditar.
E a emoção no anúncio de ontem, em Copenhagen, foi significativa. Na minha opinião, ainda que o elemento político seja indissociável, a emoção de Lula e Pelé com a vitória ontem foi, eu acredito, de fundo pessoal. Tenho ressalvas pessoais a ambos, mas é inegável que eles estavam presentes num momento que muitos, como eu já repeti, consideravam – e consideram – inviável, impossível, ilógico.
E não falo do presidente e do multi-campeão de futebol. Falo de dois brasileiros que já estiveram aqui onde nós estamos, de birra com os governantes que não levavam o Brasil a lugar nenhum.
E já que eu falei em twitter, o senador e ex-ministro da educação Cristovam Buarque fez uma ressalva, essa sim, bastante apropriada:
@Sen_Cristovam Há dinheiro para a Copa, Olimpíadas e PAC. Não há desculpas para não haver dinheiro para a educação - Perfeito!
É isso. Parabéns Rio de Janeiro, parabéns Brasil. Não conquistamos nada se não a chance de fazer deste um país melhor, um povo melhor. Espero que aproveitemos!
Bill Bryson estava sobrevoando o Oceano Atlântico. Distraído, olhava pela janela do avião, pensando no que tinha para fazer naquela viagem. De repente, lá embaixo, uma coisa lhe chamou a atenção. No ponto onde estava, tudo o que via era a água salgada do mar. Foi então que ele reparou que não sabia algo aparentemente óbvio. Por que cargas d´água – com o perdão do trocadilho – a água do mar é salgada?
Ao chegar nos Estados Unidos, resolveu se informar. E, desta dúvida aparentemente trivial, nasceu “Breve história de quase tudo” (A short story of nearly everything, Companhia das Letras, 2005). Em dois anos de intensa pesquisa, Bryson decidiu explicar o óbvio, para leigos.
Como sempre acontece na ciência, a resposta a uma pergunta traz novas perguntas. Respondida a questão do sal, pergunta: Qual a idade da Terra? Como se sabe?
A resposta dessa pergunta leva o leitor a um passeio pela história da geologia, que é o ponto de partida para uma longa viagem na companhia de diversas personalidades da história da ciência. Vejamos alguns, mais ou menos ordenados por área de atuação: Newton, Halley, Hubble, Einstein, Darwin, Mendel, Richter, Celsius, Fahrenheit, Kelvin, Mendeleev, Lavoisier, Pasteur, Parkinson e Linus Pauling.
Da idade do planeta para a geologia. Da geologia para a química, e da química para a meteorologia. Da meteorologia para o espaço. Distâncias, idade, forma, órbitas, presença ou não de atmosfera.
Vencido – da forma que é possível – o espaço, vamos para o nano-mundo. Uma célula tem, em média, aproximadamente dois centésimos de milímetro e, mesmo assim, é formada por zilhares de moléculas. Outra: no núcleo desta célula (portanto, num espaço que corresponde a uma pequena parte de dois centésimos de milímetro) existem moléculas de DNA que têm, cada uma, aproximadamente dois metros de extensão. Como isso é possível? Essa é a legítima pergunta cuja resposta é: só Deus sabe…
O que faz com que, até hoje, de todos os confins conhecidos do universo, apenas a Terra tenha vida ? Aliás.. o que define vida? Neanderthal, Cro-Magon, homo sapiens. O homem veio do macaco?
Um trecho interessante, e que dá a noção de o quão desimportante é a presença humana para o planeta, é a seguinte:
“É quase impossível para nós, cujo tempo na Terra se limita a umas poucas décadas animadas, conceber quão remota foi a explosão cambriana. Se você pudesse voltar no tempo à velocidade de um ano por segundo, levaria cerca de meia-hora para atingir a época de Cristo, e um pouco mais de três semanas para retroceder até os primórdios da vida humana. Mas seriam necessários vinte anos para chegar à aurora da vida. Ou seja, aquilo já faz muito tempo, e o mundo era um lugar diferente”(p.332).
Em outra parte:
“Se você imagina os cerca de 4,5 bilhões de anos da história da Terra comprimidos em um dia terrestre normal, a vida começa muito cedo, em torno das quatro da madrugada, com o surgimento dos primeiros organismos unicelulares simples, mas depois não avança mais nas próximas dezesseis horas. Somente quase às oito e meia da noite, com cinco sextos do dia já decorridos, a Terra consegue exibir ao universo algo além de uma cobertura irrequieta de micróbios.
Finalmente as primeiras plantas marinhas aparecem, seguidas vinte minutos mais tarde da primeira medusa e da enigmática fauna de Ediacaran (…). Às 21h04 entram em cena os trilobites (a nado), seguidos mais ou menos imediatamente pelas criaturas bem formadas de Burgess Shale. Pouco antes das 22 horas, plantas começam a brotar em terra firme. Logo após, faltando duas horas para o fim do dia, despontam os primeiros animais terrestres.
Graças a uns dez minutos de bom tempo, Às 22h24 a Terra é coberta pelas grandes florestas carboníferas cujos resíduos fornecem todo o nosso carvão, e os primeiros insetos com asas se fazem notar. Os dinossauros entram em cena pouco antes das 23 horas e dominam por cerca de 45 minutos.
Faltando 21 minutos para a meia-noite, os dinos desaparecem, e a era dos mamíferos começa. Os seres humanos emergem um minuto e dezessete segundos antes da meia-noite. Nesta escala, toda a história registrada não duraria mais que alguns segundos, e a vida de cada um de nós não duraria mais que um instante.”
É mole?
O livro não pretende trazer respostas definitivas – até por que isso nem seria possível. Contudo, ele se torna uma pequena enciclopédia que explica, de forma leve e profunda, como diabos (com que sorte e com que azar) viemos parar aqui.
Para quem gostaria de saber mais sobre tudo, mas não sabe por onde começar, eu o recomendo. Eu mesmo li ele lentamente, numa média de 30 páginas por dia, sempre que possível.
É o tipo de livro que muda.. ou, digamos, aperfeiçoa, a visão que se tem de mundo. Seja qual for o nosso entendimento sobre a vida, “Breve história” apresenta tantas nuances que é impossível não entender melhor ou repensar alguns conceitos que se tem.
Como o próprio livro diz, temos a mania egocêntrica de achar que a vida tem uma razão, e que a razão do universo é o ser humano. Arrogantemente, muitas vezes acreditamos que a nossa existência enquanto seres humanos é o objetivo e o sentido do cosmos.
Sem ter esse objetivo o livro estraçalha essa presunção. Somos apenas um estágio. Perigoso e a perigo; nocivo e salutar; eterno e efêmero. O que importa é que nós somos hoje. Não fomos ontem e não se sabe se seremos amanhã (aliás, muito provavelmente não seremos).
Mas afinal, por que existimos?
A resposta mais próxima da realidade, no fim das contas, é a simples e inexplicável: Por que sim.
Bom. Pelo menos, vejamos a que ponto eu cheguei (pra efeito desse blog, pelo menos, é o que importa).
Nove de setembro de 2009. Para a grande maioria dos mortais, significa que está é uma quarta-feira como qualquer outra. Um dia 9 de setembro que vem depois de um dia 8 e antes de um dia 10. De dois mil e nove? Ah sim, legal. E daí?
Para meia-dúzia de matemáticos e/ou desocupados, é uma data cabalística cheia de sentidos misteriosos que explica a dicotomia entre o bem e o mal, entre a criação e o fim do mundo.
Para mim, é uma data simbólica, que vai ficar marcada.
A minha empresa. Minha e de um grande amigo e sócio, é bem verdade. O caso é que depois de muitos anos de idéias, projetos e idealismos, eu botei o pé no chão e estou começando a andar. É apenas o começo deste caminho, mas é um começo bem promissor. É uma atividade que me deixa muito bem, muito feliz e que, no fim, parece que eu nasci para fazer (não sei se pelo talento, mas certamente pelo prazer).
A minha segurança pessoal. Definitivamente, essa eu conquistei. Tenho dias mais, outros menos, mas no geral posso dizer que estou bem, estável e tranquilo. Os leitores mais antigos do blog têm uma noção de o quão longa foi esta caminhada, mas eu consegui! E chegar aqui, entendendo e me entendendo da forma como estou, faz toda a dura subida ter valido a pena.
A subida vale a pena. Isso virou meio que uma filosofia de vida para mim. Eu tenho procurado traçar objetivos grandes, ousados, distantes. Audaciosos até. Mas tento, se não enxergar, pelo menos construir o caminho até lá. Alguns caminhos acabam me levando para outros lados, mas tudo tem, graças a Deus, dado certo no final.
Mesmo quando o caminho, no fim das contas, não é o que a gente esperava no início, o lugar para onde ele leva é sempre melhor do que o lugar de onde partimos.
Eu tenho um grande objetivo na vida. Mais um. É uma dessas grandes oportunidades que, às vezes, caem do céu quando a gente menos espera. Acaso? Presente divino? Destino? Mega Sena?
Nenhuma das anteriores. É “apenas” vida, no melhor sentido da palavra. E como tudo na vida, ao mesmo tempo em que acontece naturalmente, é preciso.. como diria Roberto.. Saber viver.
Eu sei viver. E sei que vou conquistar tudo o que eu quero. Na vida, tudo dura o tempo que merece. Por isso, eu quero – e acredito – que os frutos que estou plantando neste dia 9 de setembro de 2009 durarão, digamos… para sempre.
E, num momento “slogan do McDonald´s”: Amo muito tudo isso.
Um bom dia 9 de setembro de 2009 para todos e, em especial, para nós!!
Hoje estou sempre lendo 3 ou 4 livros ao mesmo tempo. Me dedicando sempre a um, mas três ou quatro no meio. Sempre pego um livro novo antes de terminar todos. Já tentei fazer diferente, mas não consigo, hehehe….
Neste momento eu estou lendo, “oficialmente”: uma biografia do Imperador Augusto (em inglês); “Mein Kampf” (o famoso livro doutrinário e pseudo-auto-biográfico de Adolf Hitler); “Caos” (de James Gleck). Além desses, tenho parados no meio: “Insultos Impressos” (sobre a história da imprensa brasileira na época da independência) e “Uma breve história sobre tudo”, que é um livro muito interessante que tenta colocar tudo (ciência, natureza, curiosidades) numa linguagem didática e quase lúdica.
Legal, né? Talvez.. mas também é perigosíssimo. Faz um tempo que eu vi um vídeo que me alertou para os perigos da leitura. Eu nunca tinha pensado nisso, e realmente fiquei preocupado. Tentei parar. De verdade, tentei… mas é inútil. É por isso que eu chamo de vício, é mais forte do que eu.
Depois do texto sobre como comecei a me viciar, fiquei preocupado com a possibilidade de outros acabarem indo pelo mesmo caminho, estimulados pelo prazer que eu expresso ao falar disso. Por isso resolvi colocar o tal vídeo aqui, chamando muito a atenção para os perigos desse vício tão perigoso.
Já imaginaram???? (pra quem quiser o texto, clique aqui)
Noves fora, agora é sério.
Leiam! Não por obrigação ou porque quem lê seja melhor do que quem não lê. Não. Leiam porque é bom. Faz bem pra alma, pra auto-estima e para a vida. Não precisa ler de tudo. Algumas pessoas lêem só romances, outras apenas livros técnicos, outros clássicos da literatura.
Não importa. Como dizia uma antiga campanha de televisão (que eu acho que já citei aqui): “Ler também é um exercício”.
Ler nos faz ter contato com outras visões de mundo. Mesmo que o livro não fale sobre isso, a forma de uma pessoa (no caso, o autor) se expressar mostra, ainda que indiretamente, seus valores. E é tendo contato com valores distintos (e não necessariamente diferentes) aos nossos que compreendemos melhor os mundos e, é claro, as diferenças.
No vídeo citado, encontram-se, entre outras pessoas, Nelson Mandela, Steven Spielberg, Albert Einstein, Jorge Amado, Martin Luther King, Stephen Hawking (o físico) e Mahatma Gandhi.
Nenhuma dessas pessoas acordou um dia e pensou: “Eu vou ali mudar o mundo e já volto”.
Não. Elas simplesmente aconteceram. É claro que algumas queriam fazer cada vez mais o melhor de si, outras queriam defender o seu povo e suas crenças, e outras ainda “apenas” tinham um talento incrível para a escrita ou para as artes. Contudo, antes de querer fazer o melhor para si ou para os outros, ou ainda antes de ser bom na escrita eles todos leram. E, pode saber, leram muito.
Alguns leram tanto que depois escreveram. E o que eles escreveram ou fizeram acabaram se tornando alguns dos pilares da nossa sociedade. Tudo o que conhecemos ou acreditamos foi, em algum momento, descoberto, dito ou feito por alguém. E, se for alguém dos últimos 500 anos, pode saber que essa pessoa leu. E leu muito.
O vídeo tem razão. Ler é mesmo um círculo vicioso. Pode transformar “ninguém” em “alguém”. Ao ler, as pessoas pensam. Pensando, elas podem falar ou mesmo escrever sobre tal assunto. Falando e sendo ouvidas, ou escrevendo e sendo lidas, elas podem atiçar curiosidades e gerar novos leitores. E esses, mais tarde, podem reiniciar o círculo infinitamente…
Eu admiro talentos. Admiro quem toca instrumentos musicais, quem pinta, quem dança, quem desenha ou quem pratica esportes. O meu talento, por todas essas, é a escrita. Só que o que me separa de qualquer outra pessoa não é nada mais do que leitura. É algo que imprescinde apenas tempo e vontade. A coordenação motora necessária, por exemplo, é quase zero. (Tem que saber segurar o livro, ok).
Isso me lembrou de uma música. Aliás, um poema do Arnaldo Antunes, que ele mesmo musicou. Chama-se “Saiba” e fala mais ou menos disso:
Todos somos, sempre fomos e seremos identicamente humanos. Exatamente iguais e, dentro das suas possibilidades, com as mesmas capacidades. É bem verdade que, em alguns casos, a ignorância – o “não saber” – é uma dádiva, mas não vamos exagerar, né?
Leitura. O Cebola que me desculpe, mas esse é o meu plano infalível.
Era uma vez uma garota chamada Julia Nunes. Neta de portugueses, 18 anos. Morando numa cidadezinha do interior ela passa 8 meses do ano estudando na capital e 4 em casa. Para se comunicar com os pais ela usa o que tem: A webcam do quarto que divide com as amigas na faculdade.
Depois de várias conversas via web, ela decide começar a fazer covers de músicas famosas tocando violão e uquelele (um parente próximo do nosso “cavaquinho”). Algo diferente, e para mostrar aos pais que está tudo bem longe de casa. E entre os covers vem Queen, Beatles, Weezer… E assim, quase por acaso, o mundo ganha mais um talento.
Apesar do nome e da ascendência, Julia é norte-americana e vive no interior do estado de Nova York. Aos 20 anos, tem 2 CDs de composições próprias gravados (por uma gravadora própria, independente) e mais de 100 mil fãs no youtube. Ela faz shows por todos os Estados Unidos e já esteve também na Inglaterra.
Sem qualquer publicidade ou apoio de gravadora. Apenas vontade, sorte, youtube – sinal dos tempos – e, é claro, talento.
Julia Nunes – Accidentally in Love (Counting Crows)
Ela faz todos os sons. Toca a percussão, a “flauta”, o uquelele e faz os efeitos vocais. No fim do vídeo, aparecem ela e a irmã comentando um vídeo que fizeram no Youtube em homenagem a ela.
Em outro vídeo, da música “It´s raining men” (“Estão chovendo homens”) , ela abre dizendo: “Bom, esta certamente não é uma canção sobre monogamia”:
Julia Nunes – It´s Raining Men (The Weather Girls)
Curiosidades: O texto no início do vídeo conta que ela tinha recém feito 19 anos, e ao final celebra os 419 fãs que tinha na época no Youtube (os mesmos que hoje passam de 100 mil).
Julia Nunes – The Beatles – All My Loving
Neste ela faz um agradecimento aos fãs, mostrando, no decorrer do vídeo, cartas e mensagens recebidas de diversas partes do mundo (e isso não é exagero).
Por fim, duas composições próprias.
Julia Nunes – Maybe I Will
O clipe oficial de Maybe I Will. O único vídeo que não se trata basicamente de ela e os instrumentos. Foi feito apenas com fotografias, na técnica que se chama “stop-motion”, muito em moda atualmente na internet. As fotos levaram dois dias para serem tiradas. No final, ela e a colega de quarto que tiraram as fotos comentam alguns detalhes…
Também dá pra notar que numa parte do vídeo as fotos foram ordenadas de trás pra frente, pois não tem como ela “desfazer” o que ela “desfaz”.. hehehe…
Julia Nunes – Into the Sunshine
Bom, é impossível colocar todos os vídeos. Acho que até aqui dá pra ter uma idéia do carisma, da criatividade e, é claro, do talento da Julia. Além de tudo, ela é muito bonita. E é uma beleza simples, natural, e que se mantém nos diversos “momentos”.
Como eu comentei, ela tem 2 CDs gravados e mais de 100 mil fãs inscritos no seu canal do Youtube. Os CDs, aliás, têm os criativos nomes de “I wrote these” (“eu escrevi estes”, para dizer que é de músicas próprias) e ”Left, Right, Wrong” que, em tradução livre seria “Esquerdo, Direito, Errado”, num trocadilho com os dois sentidos da palavra “right”.
Ah sim. Num dos vídeos do Youtube ela explica por que “jaaaaaaa”. Basicamente era um apelido de escola, “pegando o meu nome e tirando as letras do meio”.
No fim, é como dizia uma antiga propaganda: nada substitui o talento.
A notícia da semana foi a morte do Michael Jackson. Talvez comercialmente ele já estivesse morto há mais de uma década, e nem dá para dizer que a morte dele foi exatamente uma comoção mundial.
O que marca a morte de Michael Jackson não é o que ele é hoje, mas o que ele foi, quem ele foi e o que ele representa. É como se se dissesse: “Lembra do cara que, na infância, era dos Jackson 5, depois na carreira solo gravou Thriller – o disco mais vendido da história – e ainda fez o histórico clipe de Black or White? Pois é.. morreu.”
É claro que essas são três das milhares de curiosidades, características e dos diferenciais de Jackson. O “moonwalk”, por exemplo. Eu já vi e cansei de ver, mas agora ele morreu e eu ainda não sei como ele fazia. Fato!
Michael Jackson – Billie Jean
Eu era criança, mas lembro que tive, na época, o Thriller. Este não só foi como é e, considerando a superação da tecnologia, será para sempre o disco mais vendido da história. Não estou falando de produto fonográfico (pois certamente existirão outros que poderão vender mais), mas o DISCO mais vendido da história é o Thriller.
Acha pouco? Num mundo com Elvis, Beatles, Stones e qualquer outra coisa que se pensar. O disco mais vendido é de 1982. Nenhuma das maciças campanhas publicitárias sobre lançamentos musicais dos anos 90/2000 foram capazes de superar a marca. Nenhuma!
Michael Jackson é um símbolo dos anos 1980. A música e a cultura daquela época foi fortemente influenciada pelo seu estilo. Tanto é verdade que o cinema já usou Michael Jackson para fazer referência aos anos 1980 em 2015:
Cena de De Volta para o Futuro 2 (e o que vocês esperavam?)
Digam o que quiserem, mas ele foi, sem dúvida, um grande cantor e um excelente dançarino. O último showman vivo. Aliás, talvez o único de sempre. ”O rei do pop” foi o maior de uma época, e não porque alguém queria dizer, mas porque ele era.
A comparação que era feita em vida entre ele e Madonna, por exemplo, é historicamente inócua. Em algumas épocas Madonna fez tanto ou mais sucesso que Michael Jackon, sim. Mas sua relevância histórica acaba aí.
Quem não morria de medo do clipe de Thriller? Da insuperável risada maquiavélica de Vincent Price no final? (Bom, ok.. talvez quem tivesse mais do que 5 ou 6 anos não tivesse medo disso).
Muitos dirão que “todos viram santos ao morrer”. “Mais um texto em homenagem só porque ele morreu”. Eu responderei: sim e não.
É claro que não dá para ignorar os mistérios de Michael Jackson. Como alguém vira branco? Afinal, ele era culpado ou inocente das acusações de abuso sexual infantil?
Como sempre, em nenhum momento eu estou dizendo que ele era santo, e nem acho que isso seja o que deve passar para a história. Mas os erros não superam e definitivamente não eliminam os acertos. Não quero entrar aqui numa discussão sociológica, então deixo essa parte com cada um.
No auge do sucesso, Michael Jackson foi um grande amigo do beatle Paul McCartney. Tanto é verdade que no próprio Thriller eles gravaram “The girl is mine” (a garota é minha) em que ambos debatem e duelam sobre o amor de uma garota. É uma bela música, quem tiver curiosidade eu sugiro que procure (Não achei o clipe no Youtube).
Durante anos, Michael Jackson foi proprietário dos direitos sobre as músicas dos Beatles. Eu não sei bem se ele ainda é, nunca tive uma informação definitiva sobre isso. Também já ouvi dizer que ele e o Paul teriam rompido relações por isso. Pode ser que sim, não sei.
Mas nem só de Thriller viveu Michael Jackson. Longe de ser um artista de um disco só, foram inúmeros os sucessos em mais de 30 anos de carreira solo. Vale lembrar dois clipes em especial: um pelo marco que representou e o outro pela mensagem.
O primeiro é o já citado Black or White, com a participação do super-astro-meteóricamente-ostra Macaulay Culkin. O menino, aliás, acabaria vivendo na vida real o nome – em português – do maior sucesso de sua carreira: “Esqueceram de Mim”.
O segundo, talvez seja o que fez menos sucesso de tudo o que eu mostrei até aqui. Contudo, é um clipe belíssimo de uma música fantástica. Antes da febre “ecologicista” atual, a música chamava a atenção para a devastação da natureza, num vídeo muitas vezes impactante. O nome é simplesmente “Earth Song” ou “A canção da Terra”.
Uma curiosidade aos desavisados: a música da abertura do Video Show, da Rede Globo, é do Michael Jackson. Chama-se: “Don´t stop til you get enough” (veja aos 2:33).
Michael Jackson – Don´t stop til you get enough (letra)
Por fim: “We are the World”. Uma constelação de artistas cantando pelo continente pobre. Música composta por Michael Jackson e Lionel Richie, num evento organizado pelo próprio Jackson.
É impossível resumir Michael Jackson em um texto. O mundo perde sim, um dos seus grandes talentos. É uma era da música que se acaba. O símbolo de uma geração que se vai.
Wilson Simonal. Um artista como poucos. É claro que a minha avaliação pode ser e é prejudicada por eu só ter conhecido ele de ouvir falar. Quando eu nasci, no fim dos anos 1970 ele já não fazia mais sucesso. Não que não merecesse, estivesse morto ou qualquer coisa assim, mas um provável e infeliz engano o levou ao ostracismo nacional em vida..
Um cara divertido. Simplíssimo, com cara de malandro, jeito de malandro e ingenuidade de malandro. Com uma voz surpreendente e um carisma que poucas pessoas no mundo têm, Wilson Simonal regia massas com uma facilidade incrível.
No palco, enquanto dizia para uma parte da platéia cantar “assim” e outra cantar “assado” (e sempre ao “alho e óleo, sem champignon”. Ou seja, com leveza, sem berrar) ele não estava controlando ninguém. Estava conversando com uns amigos, talvez brincando de jogral. O detalhe é que eram, digamos, 30 mil “amigos” lotando o Maracanãzinho…
Pilantragem. Uma mistura de samba com sei-lá-o-que, que Simonal transformou num estilo musical. As músicas não pareciam lá muito desenvolvidas artisticamente falando, mas eram dançantes e tinham a honra de disputar mercado com o ié-ié-ié de Roberto Carlos e companhia.
“Meu limão, meu limoeiro”, “Mamãe passou açúcar em mim” (com a sensacional versão em inglês: “Mother sprayed sugar on me”), “Nem vem que não tem” e, é claro, a famosa versão monossilábica de “País Tropical”, de Jorge Benjor, são alguns dos grandes sucessos do artista.
Às vezes é chato e pode até soar preconceituoso, mas Simonal é mais um dos vários artistas e personalidades (do Brasil e do mundo) que, antes de qualquer coisa, era, sempre foi e – até que o pensamento geral mude – continuará sendo… um negro.
Apesar e com consciência disso, Simonal fazia um sucesso estrondoso na virada dos anos 1960 aos 1970. Ele mesmo “brincava” com a questão do preconceito, mais para não deixar esquecerem que ele era sim, um negro, e nem por isso menos talentoso ou adorado.
Fez um dueto histórico com a cantora americana Sarah Vaughan e prestou uma homenagem ao então recém-assassinado Martin Luther King (numa canção que dedicou ao filho, Wilson Simoninha). Ele não chegava a ser um ativista, mas nunca esqueceu suas raízes e de sua origem pobre.
Foi convidado e aceitou viajar com a seleção brasileira para a Copa de 1970, no México, como amuleto. Em 1971, entretanto, foi expurgado.
Trailer do documentário:
“Simonal: Ninguém sabe o duro que dei”
O fato: Simonal ganhava rios de dinheiro. Tinha patrocínios polpudos e fazia shows arrasadores. Num determinado dia, ele descobriu que estava sem grana, zerado, quebrado. Não teve dúvidas: mandou uns “amigos” darem uma coça no seu contador.
Os tais amigos – que prestavam serviço também ao Dops – fizeram o solicitado. Torturaram o contador até que ele confessasse (sinceramente ou não) o roubo.
O problema: a esposa do contador deu queixa na Polícia Civil. Simonal acabou processado.
O erro: no depoimento ao delegado, Simonal disse que tinha amigos no Dops, como quem quer dizer que nada aconteceria a ele.
Agravantes: o sucesso “alegre e despreocupado” em pleno AI-5, a viagem com a vitoriosa seleção brasileira de Médici ao México em 1970 e o ufanismo de músicas como “País Tropical” não depunham exatamente a favor da sua neutralidade do cantor.
Verdade ou mentira? Agora não vem mais ao caso. O fato é que, no auge da repressão pós-AI-5, aquele foi o comentário mais infeliz possível. Zilhares de pessoas sumiam na mão do Dops, e a nova fama de dedo-duro acabou instantaneamente com a carreira de Simonal.
No primeiro show após o depoimento, foi vaiado e não conseguiu cantar. Foi limado, “esquecido”. Nem a esquerda, nem a classe musical, nem a direita. Ninguém levantou o dedo para contestar nada. Dali em diante, Simonal foi ignorado solenemente pelas massas e por todos.
Um dos grandes destaques do documentário é a entrevista exclusiva com o tal contador. O filme não se propõe a explicar ou defender um lado, mas a mostrar o que aconteceu antes, naquele momento e nos anos que se seguiram até a morte do artista, aos 62 anos, em 2000.
Eu nasci poucos anos depois disso, e mesmo assim levei ainda outros 30 para conhecer – superficialmente – Wilson Simonal.
Nos anos 1990, Wilson Simoninha – o filho – começava a fazer sucesso. Simonal ia aos shows sempre escondido, pois não queria prejudicar a carreira do filho… Aquilo que poderia ser o final feliz de uma carreira de sucesso (curtir o sucesso dos filhos) acabou sendo um final melancólico e, de qualquer forma, injustificado…
Na minha opinião, se fosse verdade o fato de ele ser informante do Dops, por que o governo também o deixou no ostracismo? E, como bem lembra Chico Anysio no filme, alguém conhece alguém que conheça alguém “entregue” pelo Simonal?
Outra coisa: existe mais alguém que tenha sido limado do convívio social em vida? Outro dedo-duro, torturador, político ou militante de esquerda? Artista, talvez? Acho que não… por que SÓ Simonal? Mesmo depois da ditadura, com anistias e parafernalhas, todos voltaram.. menos ele. Por quê?
Nos anos 1990 ele até conseguiu um documento do governo atestando não haver registros de seu nome nos arquivos do Dops e demais órgãos de repressão… mas aí, além de ser tarde, ninguém deu bola.
“Vivemos em uma imprensa que toma
o indício como sintoma,
o sintoma como fato,
o fato como julgamento,
o julgamento como condenação
e a condenação como linchamento”
Esse comentário de Artur da Távola no documentário mostra bem a pressa com que a imprensa brasileira – de ontem e de hoje – procura “resolver” os problemas do país. No caso de Simonal a culpa nem foi só da imprensa (ou do Pasquim, o qual Ziraldo e Jaguar tentam defender), mas parte da responsabilidade cabe a ela sim.
No documentário alguns amigos se dizem arrependidos de não ter levantado a voz a favor de Simonal. Eu acho compreensível, levando em conta o clima pesado e bipolar que o Brasil vivia na época. Vozes desconhecidas e isoladas dificilmente conseguiriam mais do que prejudicar a si próprios…
Os filhos (Simoninha e seu irmão, Max de Castro, também presentes do documentário) ressaltam que agora não importa encontrar “culpados”. A vida segue e, em todo o caso, Simonal já se foi…
Fui assistir ao documentário na semana passada com uma grande amiga que não gosta desse tipo de filme, mas disse que adorou “Simonal”. Dirigido por Claudio Manoel (sim, o “Seu Creysson do Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, “Simonal: Ninguém sabe o duro que dei” conta bem a história do biografado.
Depoimentos de Pelé, Chico Anysio, Toni Tornado, Nelson Motta, Miéle, Jaguar e Ziraldo, entre outros, fazem do filme um importante registro de uma parte da história do Brasil e da música brasileira.
Ele não era “da canhota”, como se referia – ironica e, talvez, irresponsavelmente – aos “da esquerda”. Também não há nada que prove -além de depoimentos de interessados – o fato de que ele seria “da direita”. Ele era, acima de tudo, Wilson Simonal.