Archive for the ‘Política’ Category

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Você é o que você lê (2)

02/07/2012

Impressão Digital 2E finalmente seguirei com a série sobre os livros que li, organizados de forma anual. Tendo como base sempre o meu aniversário. Já escrevi sobre os livros que li entre os dias 28 de outubro de 2007 e 28 de outubro de 2008. Agora, vamos do dia 28 de outubro de 2008 a 28 de outubro de 2009.

Pois bem, eu leio muito. Mesmo assim, às vezes eu acho que eu tenho tanta cultura (informação cultural) que tenho que cuidar para não ser pedante ou repetitivo. Eu leio para mim, de curioso, de “pesquisador”, de jornalista. Gosto de saber como, quando, porquê.. e onde?… Mas eu sei que nem todo mundo divide essa “febre” comigo.

Daí que algumas vezes eu estou conversando sobre qualquer assunto e lembro de algo que eu li.. não menos que de repente, lá vem o Fábio: “E tu sabe por que isso?”. Se o pobre mortal não sabe, lá vem a explicação….

Talvez para muitos isso seja uma característica minha. Boa ou má, algo que me identifica. Deve ter algo bom, porque as pessoas vêm às vezes me perguntar coisas “nada a ver”, e eu, se não sei a resposta, procuro. É meio que um serviço gratuito, hehehe. Na real, acho legal ter essa “característica”, e lamento pelos que não gostam.

Pois a lista iniciada quase cinco anos atrás, em outubro de 2007, segue ativa. Tendo  meus aniversários como referência (é assim que a lista está organizada), em 2008 foram 16; em 2009, 12; em 2010, 22; em 2011, 25; e, em 2012, até agora, 30 livros. Faltam quatro meses para ler mais seis e chegar a 3 livros por mês. Será que eu consigo?

A minha ideia original era, sempre no meu aniversário publicar um texto aqui no blog sobre os livros que eu li nos últimos 11 meses. Não deu. Vamos ver se até outubro eu consigo botar em dia, pelo menos, hehehe…

Buenas.. vamos à segunda parte. Livros lidos entre 28 de outubro de 2008 e 28 de outubro de 2009.

A América aos nossos pés (Eduardo Bueno) – Um livro com um texto nota 10 e uma imparcialidade nota 0. Bom, mas e quem disse que o Peninha Bueno alguma vez pretendeu ser imparcial? Nesta gremistíssima visita à vitoriosa campanha da Libertadores de 1983 (pulicada em 2008, aos 25 anos do primeiro título gremista na competição), o livro nos leva a uma epopeia de batalhas sangrentas, contra tudo e contra todos, num tempo em que a Libertadores era jogada a sério.

O primeiro capítulo do livro, aliás, ilustra o tom de toda a obra. É uma reunião dos libertadores da América José Francisco de San Martín, Jóse Artigas, Simón Bolívar – El Libertador, Bento Gonçalves e O’Highins, para decidir o futuro do torneio. A partir do segundo capítulo sim, relembramos a campanha de 1983, nos áureos tempos das batalhas campais por toda a América do Sul..

Médico de Homens e de Almas (Taylor Caldwell) – Uma das melhores “biografias” que eu li. Conta a história de Lucano (ou, em português, Lucas), autor de um dos evangelhos da Bíblia atual, mas o único que nunca conheceu Jesus. Já escrevi sobre ele aqui, mas vale ressaltar que é um livro muito gostoso de ler, mesmo tendo mais de 700 páginas. Uma viagem pelo Oriente Médio da época de Cristo, contemporânea ao início do cristianismo.

Anjos e Demônios (Dan Brown) – Para mim, até hoje o melhor livro do Dan Brown. Melhor que o mais famoso, “O Código Da Vinci” inclusive, sim. Uma profunda e imparcial discussão entre ciência e religião, trazendo elementos históricos da Igreja Católica e da arquitetura da cidade de Roma. O filme não fez jus ao livro, se bem que acho que nem teria como. Se quiser saber mais, leia aqui.

Eric Clapton – A Biografia (Eric Clapton) – Todos temos nossos ídolos. E todos quase sempre caímos na ilusão de acreditar que eles são seres superiores: felizes, ricos, saudáveis e bem resolvidos. Pois nesta incrível auto-biografia, Eric Clapton, ao mesmo tempo que passeia pelos seus 50 anos de música, nos leva pela sua desventurada experiência com as drogas e o alcoolismo.

Uma história dura, que esteve muitas vezes perto de um final abrupto, mas que graças à força de vontade de Clapton, “limpo” há mais de 20 anos, segue encantando plateias em todo o mundo. Momentos marcantes como a morte do filho e o relacionamento com o beatle George Harrison também estão lá, ajudando a abrilhantar ainda mais a história da música no século XX.

Noites Tropicais (Nelson Motta) – Pode nãõ parecer, mas é uma auto-biografia. Meio sem querer, e sem fazer alarde, Nelson Motta foi uma espécie de Forrest Gump brasileiro. Testemunha e, muitas vezes, personagem da história da música brasileira desde o surgimento da Bossa Nova e da Jovem Guarda, passando pela época dos Festivais, pela psicodelia dos anos 1970, o rock-Brasília do começo dos anos 1980 até o Rock In Rio 1985, com shows antológicos como Queen e Barão Vermelho. Também já fiz um texto sobre isso no blog.

Ministério do Silêncio (Lucas Figueiredo) – Muitos brasileiros 9praticamente todos na verdade), acreditam que existem muitas coisas escondidas nos corredores de Brasília que não se sabe nem nunca se saberá.

Bom… este livro do repórter Lucas Figueiredo demonstra que essas teorias conspiratórias são.. verdadeiras. Ao contar a história da Inteligência brasileira, desde o Dops de Getúlio Vargas, passando pelo Doi-Codi/SNI dos militares até a Abin de Lula e sua turma, a obra mostra que, em alguns momentos importantes da história brasileira, o povo e as instituições praticamente não passaram de fantoches que acreditavam estar agindo por conta própria. Triste realidade…

Luís XVI (Bernard Vincent) – A Revolução Francesa. Eita tópico complexo de se entender… Li o livro sobre o rei Luís XVI na esperança de entender um pouco melhor, e isso realmente consegui… mas são tantos lados, tantas “verdades”, que acho que será impossível chegar a uma conclusão. definitiva Bom, algo dá pra concluir: sem dúvida, foi uma revolução!

Este livro de Bernard Vincent tenta se focar na vida do Rei, mas isso seria impossível sem manter a contextualização histórica sempre próxima. Principalmente na virada que acontece quando ele vai para Versailles sem perceber, ainda, as mudanças que já estavam em curso e que o levariam a perder a cabeça (literalmente)…

Almanaque da TV (Bia Braune & Rixa) – Uma viagem pela história deste tubo infecto” (pelo menos até a chegada do plasma e do LCD). Não no sentido tecnológico, mas no cultural. Desde o começo com a TV Tupy de Chateaubriand, nos anos 1950, passando pela Excelsior, pela Record pré-IURD, Bandeirantes, Globo, SBT..

Programas, séries, personagens, bastidores e curiosidades que, de certa forma, não deixam de ser uma forma de acompanhar a história sócio-cultural do Brasil nos últimos 60 anos. Um ótimo livro pra quem busca entretenimento e nostalgia!

Cuba – Uma nova História (Richard Gott) -Foi o primeiro livro que eu li na minha tentativa de “entender abaixo da superfície” temas sempre recorrentes. Depois fiz o mesmo com a história da Inglaterra, da Rússia e da China. Claro que ainda há muito o que ser explorado, mas já consigo contextualizar tudo melhor, e este é o objetivo.

Pois o caso de Cuba é interessantísimo. Quando falamos na maior ilha da América Central, pensamos direto em Fidel Castro.  Pois o livro de Richard Gott nos conta a história desde o descobrimento, os séculos de domínio espanhol até a vitória norte-americana no final do século XIX. Só no final (faltando cerca de 50 páginas) é que chegamos a Fulgêncio Batista, o golpe e o socialismo de Fidel Castro. Ainda aí há muita história, como a crise dos mísseis e a relação de Castro com a U.R.R.S.

Acredito que uma boa definição para a história da ilha até os dias de hoje seja o título que escolhi para o texto que escrevi sobre o livro: Independência ou Cuba!

Breve História de Quase Tudo (Bill Bryson) – Partindo de uma dúvida totalmente banal, Bryson nos leva em uma viagem pela história da ciência. Meteorologia, química, física, biologia.. tudo em uma linguagem simples e muito bem escrita. Há muito mais a ser dito, e para isto, recomendo que leiam o texto que escrevi aqui.

Einstein – Sua vida, seu universo (Walter Isaacson) – Todos já ouviram falar da Teoria da Relatividade de Einstein. Mesmo que alguns não façam ideia do que é, do que significa ou do que representa, certamente já ouviu falar.

Pois Albert Einstein é muito mais do que isto. Ainda que, inegavelmente, sua teoria tenha revolucionado a ciência (como, anteriormente, somente Isaac Newton tenha sido capaz), o homem por trás do cientista é, também, interessantíssimo.

Einstein não decidiu ser cientista, mas quando viu não tinha mais saída. Dono de um curiosidade imensurável, o físico alemão chegou a vir ao Brasil (ao Ceará) para comprovar uma de suas teorias. O livro de Walter Isaacson (o mesmo que, mais recentemente, escreveu a biografia de Steve Jobs) nos mostra mais do que o teórico, mas também a pessoa, o homem que viveu intensamente a sua época, inclusive fugindo, por ser judeu, da Alemanha nazista durante a segunda guerra mundial.

Impossível resumir Einstein em três parágrafos. Se quiser mais, leia o texto que escrevi. Se quiser ainda mais… ora, leia o livro!!

Rua da Praia (Nilo Ruschel) – Eu adoro histórias da Porto Alegre antiga. Neste livro, Ruschel nos fala de uma cidade em pleno crescimento, com histórias e histórias de uma Rua da Praia que já não existe mais. Na época dominada por Cafés, mais tarde com lojas de departamentos. Uma bucólica cidade, com vida social ativa e, aos olhares de hoje, bastante romântica. Vale a pena viver Porto Alegre, em todas as épocas!!

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Mais fácil que andar pra frente…

16/06/2012

Uma vez, há muitos anos, eu li que o mundo atual era para um homem, branco, magro, que enxergasse, caminhasse e escutasse com perfeição. Também com algum dinheiro sobrando, estudo e educação. Era importante também saber se comunicar, ouvir e respeitar a todos.

A segunda frase é perfeita. A terceira e a primeira, entretanto, em certo sentido, se contradizem. Como respeitar a todos num mundo “programado” para seres “perfeitos”? A contradição se mantém, mas na verdade eu não tinha conhecimento, ou vivência, na época, para entender a frase toda.

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Eu comecei a entender melhor numa das viagens que fiz ao Rio de Janeiro. Minha amiga de lá, pedagoga, por acaso estava participando de um congresso nacional sobre educação especial naquela mesma semana. Pra mim foi uma experiência muito interessante. Uma grande troca de ideias e, digamos, uma atualização na visão de mundo…

O momento mais marcante foi durante uma palestra/debate, no auditório da faculdade. O auditório, como normalmente acontece, tinha cada fila de cadeiras um degrau acima do anterior, como acontece em cinemas ou estádios de futebol. Atrás da última fila, uma nova escada descia ao nível “do chão”, para a entrada.

Lá pelas tantas, diversas autoridades da faculdade e da educação brasileira discutiam acessibilidade, a mudança de paradigma que era necessária para a inclusão social dos cadeirantes e deficientes visuais. Tudo ia bem, todos se sentindo cada vez mais integrados, mais cidadãos até o momento em que um cadeirante, lá em cima, na última fileira, pediu a palavra:

“Olha… eu acho tudo isto muito lindo, muito bonito… tomara que dê certo… mas alguém parou pra pensar como eu cheguei aqui em cima?”.

O constrangimento foi total. Enquanto se discutiam políticas públicas, iniciativas privadas e soluções gerais, esquecia-se que, ali mesmo, na faculdade, um cadeirante teria problemas de locomoção…

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Uns anos depois, outra experiência, desta vez com deficientes visuais. Eu fiz um estágio num local onde os profissionais de atendimento eram deficientes visuais totais. Um dia, conversando com um deles (chamarei de Ana) exatamente sobre os problemas que eles tinham, por exemplo, para atravessar uma rua, ele me contou uma história que seria cômica, se não fosse um triste exemplo da falta de… noção… que algumas pessoas têm das dificuldades dos outros…

A Ana me contou que certa vez precisou atravessar uma avenida aqui de Porto Alegre. É uma grande avenida, daquelas que têm um canteiro dividindo as duas pistas. Como sempre, ela parou na esquina tateando o chão com a bengala esperando que alguém se oferecesse para ajudar.

Não demorou e um pedestre se ofereceu. Naqueles poucos segundos em que cruzavam a primeira pista trocaram meia dúzia de palavras. Ao chegar ao canteiro, o pedestre pergunta: “Quer atravessar até o outro lado?”.

Ana achou que o pedestre estava brincando, e respondeu: “Não, não… aqui está bom”. E a pessoa simplesmente soltou o braço dela e a deixou, sozinha, no canteiro da grande avenida.

Vale lembrar ainda um comentário que outro deficiente, daquele mesmo local, me fez quando meu trabalho lá terminou. Ele comentou:

“Fábio, tu és um cara muito legal, mas não é muito esperto. No início, nas primeiras vezes que vieste, fazias teu trabalho, mas não abria muito a boca. Sei que é uma questão de educação, mas se tu não produzir um som eu não tenho como saber se tu vieste ou não…”.

De fato, nas primeiras vezes que estou em um novo grupo de pessoas, sou mais discreto. Até ganhar confiança, e aí me solto. Só que, entre deficientes visuais, isso não é muito… inteligente…

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Ainda sobre deficientes visuais. Recentemente fiquei sabendo que, na calçada localizada na frente do prédio do principal jornal da cidade de Rio Grande-RS, foram utilizadas peças de calçadas especiais para deficientes visuais (aquelas em cor diferente e com marcações em relevo) para decorar a área em frente ao jornal.

Ao invés de utilizar de forma correta, cortando longitudinalmente a calçada para guiar os que se utilizam dela, usaram para circundar a calçada. Isto deixou uma parte da calçada “especial” junto ao meio-fio, o que certamente pode causar acidentes, contrariando totalmente a ideia de segurança para qual estas peças em relevo se destinam.

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A terceira experiência que tive com as dificuldades de um portador de necessidades especiais foi em 2012, e bem mais pessoal. Entre março e abril eu perdi peso muito rapidamente, demais até, e acabei também eliminando massa muscular. Isto dificultou e muito a minha locomoção, de forma que cheguei até, certo dia, a utilizar uma cadeira de rodas para me locomover em um hospital.

Ainda estou melhorando, mas já bem melhor do que antes. Contudo, algumas conclusões que eu cheguei. Primeiramente… como tem escada!! Quando se caminha com naturalidade não reparamos, mas para todo o lado tem escada, degraus, desníveis ou mesmo inclinações suficientes para, no mínimo, dificultar muito o acesso para os que não podem caminhar “normalmente”.

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É claro que a falta de preocupação com acessibilidade na construção de avenidas, meio-fios, prédios e escadas não é fruto de má-intenção dos seus proprietários nem do governo. Apenas que vivemos hoje, desde o final do século XX, num mundo cada vez mais atento a essas pessoas (deficientes físicos, visuais ou auditivos) que, na verdade, sempre estiveram aí.

Também é verdade que não se resolve todos estes “obstáculos” em uma semana. Já se vê, em muitos locais, preocupações com acessibilidade, mas ainda há MUITO o que fazer…

Respeito. Uma palavra tão simples, mas às vezes tão difícil de ser compreendida. Respeito não e aceitar diferenças, mas compreendê-las. Saber por que se deve dar preferência, por que ajudar não tira pedaço e, principalmente, saber se colocar no lugar do outro ser humano sem menosprezá-lo.

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O mundo é feito para todos. Brancos, negros, amarelos; magros ou gordos; que possuam ou não qualquer tipo de deficiência física ou mesmo mental.

Por fim, essa preocupação com questões de acessibilidade e com a integração dos que têm necessidades especiais é, provavelmente, o lado bom da mania moderna do “politicamente correto”. Sim, pois a ideia de que TUDO tem que ser respeitado, e de que respeito significa não dizer um “ai” é repleta de exageros, mas isso é assunto para outro momento…

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Outra questão de Educação…

04/05/2012

A Educação (assim mesmo, com letra maiúscula) é, sem dúvida, a maior virtude e a maior fraqueza de um país, de um povo, de uma nação, seja na cultura que for.

E aí não falo apenas de colégio, faculdade, pós-graduação. Falo também de palavras mágicas tipo com licença, por favor, obrigado, “não, obrigado”, bom dia, até logo. Coisas grandes e coisas simples, pequenos gestos quase automáticos, mas que fazem uma falta enorme. O país que não prepara seu povo para a Educação, vai sempre correr atrás da máquina. E quanto maior, mais diverso e mais complexo for este país, mais urgente serão seus problemas, e mais difícil será resolver a Educação.

Um povo com fome não se preocupa com Educação. Um povo sem segurança também não. Nem um povo sem emprego. A sobrevivência vem antes do convívio social, digamos assim, na lista de prioridades desta raça que chamamos de humana.

Pois o que nos torna humanos é exatamente o respeito mútuo, a capacidade de admirar e criticar com o mesmo bom senso. De respeitar diferenças, reconhecer qualidades e desculpar defeitos (principalmente os subjetivos).

No caso do Brasil é dispensável dizer o tamanho do problema que é a Educação. Somos o quinto maior país do mundo em território, maior que a Europa inteira e que os Estados Unidos continentais (excetuando-se o Alasca). Podemos botar aí também, que somos maiores que o resto da América do Sul e toda a América Central somados e quase maiores que a Oceania inteira (perdemos por meia dúzia de milhares de ilhazinhas que nem aparecem no mapa).

Para piorar, adicione 500 anos de total indiferença com a Educação, tanto por parte dos governantes, que tinham “outras coisas” com o que se preocupar, quanto por parte do povo, que nem sabia exatamente  o que era Educação.

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Pois eis que, afinal, o Brasil começou a evoluir. As discussões deixaram de se focar tanto em fome e habitação, e começam a se direcionar para Educação e segurança. É claro que a diversidade de posições e o velho jogo de interesses ainda deturpam muito os debates, mas já estamos caminhando, e isto é muito bom.

Educação é uma soma. Começa na família, que é responsável por dar noções de cidadania, respeito e limites; passa pela escola, que é responsável pela cultura (incluindo as disciplinas letivas) e chega ao convívio social, pois principalmente na infância e na adolescência as companhias têm muita influência na formação do caráter e no conceito pessoal de Educação.

O papel do Governo, enquanto representador e responsável pelo povo, é fornecer a base para tanto família quanto escola possam fazer a sua parte. Assim, o convívio social “melhora” naturalmente…

Mas como o governo deve fazer isso? Pelo lado da família, promovendo condições de cidadania, incluindo moradia, saneamento básico, segurança, emprego. Pelo lado da escola, garantindo a qualidade do ensino e dos educadores (sejam professores, diretores ou funcionários do sistema escolar).

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Existem atalhos? Não, não existem. Um dos grandes obstáculos, por sinal, para resolver o problema da Educação, é que seus investimentos são altos, e seus retornos costumam demorar. Uma geração bem educada só terá frutos na próxima, e depois na outra, e na outra… e assim, sucessivamente.

Em 2003 – e eu já citei isto aqui no blog – o então Ministro da Educação Cristovam Buarque disse, numa palestra em Porto Alegre: “No dia em que nossos professores ganharem tanto quanto nossos juízes, nossos juízes não terão tanto trabalho”.

E é fato. Professores bem remunerados (e nem precisa ser com o salário obsceno dos nossos juízes) se sentirão motivados a ensinar e se especializar mais, gerando cidadãos mais conscientes e mais preparados. Professores motivados geram melhores cidadãos. Cidadãos estes que se tornarão melhores médicos, melhores engenheiros, melhores operários, melhores garçons, melhores arquitetas e, é claro, melhores professores.

É uma bela sugestão, talvez utópica, mas que ataca a origem do problema: a Educação de base. Sim, pois ninguém começa a construir uma casa pintando o telhado. Primeiro vem os alicerces, as paredes, a estrutura hidráulica e elétrica, o teto e só depois, telhados e acabamentos. O que acontece se começarmos pelo telhado?

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Bom. O telhado pode pesar muito para o resto da estrutura e destruir tudo. Ou o telhado pode resultar em beleza estética sem melhoras práticas. Ou ainda, pode ser que olhando de cima pareça estar tudo resolvido e o problema em si acabe esquecido.

Nem uma coisa nem outra, nem a terceira.

Para mim, é isto o que acontece com o sistema de cotas, que o Supremo Tribunal Federal recentemente julgou procedente. (o assunto aqui é o sistema de cotas raciais, mas da mesma forma sou contrário ao sistema de cotas com base sócio-econômica).

Vejamos: por que razão existe o sistema de cotas raciais no Brasil? Porque, historicamente, somos um país de minoria dominante branca, econômica e socialmente privilegiada. Também porque praticamente apenas esta minoria hoje, tem acesso ao ensino particular, qualitativamente muito acima do ensino público, de maioria negra.

O que isso significa? Seguindo a ideia expressa acima, significa que aqueles que vêm do ensino público tiveram uma Educação de menor qualidade, principalmente na escola. Teoricamente sabem menos matemática, menos história, menos física, menos biologia e, obvia e tristemente, menos língua portuguesa.

E o que o sistema de cotas raciais determina? Determina que os “negros” (e aspas bem ressaltadas, no caso de um país absurdamente miscigenado como o Brasil) compitam apenas entre si para vagas na Universidade. Com qual motivação? Ter mais negros graduados, mais profissionais de cor com oportunidades de se tornar alguém na vida, “corrigindo um erro histórico”.

Obs: não vou nem entrar na discussão de “o que é ser negro” no Brasil.

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Ok, mas aí cabe uma observação e duas perguntas:

Considere-se primeiro que um aluno “branco”, proveniente de escolas particulares e que teve condições de pagar (seja da forma que for) pela sua faculdade. Ele não necessariamente será um bom profissional, ou mesmo um profissional honesto. Ou seja, a Educação “100% privilegiada” no Brasil não garante nem Educação nem caráter.

E sobre este cidadão proveniente das cotas: Sem nenhuma conotação pejorativa, será que ele tem condições de futuramente prover uma Educação melhor para seus filhos? Bom, Educação formal sim, mas a escolar absolutamente não.

Segundo: Se o cidadão não teve uma boa escola, ou não foi um bom aluno, tendo chegado ao terceiro ano do Ensino Médio na base da obrigação, passando porque tinha que passar, mas sem aprender, por exemplo, biologia ou química, será que ele tem condições de ser um bom médico? Enfermeiro? Se não aprendeu matemática, será um bom engenheiro? E o pior… Se não aprender português, terá condições de ser um bom qualquer coisa? (isso cabe, inclusive, aos provenientes do ensino privado, como já citado).

E, antes que me perguntem, o bom aluno negro tem condições de passar sem cotas, pois este perfil desleixado de estudante é a esmagadora maioria também entre os “brancos”…

Posso estar enganado, mas para mim o sistema de cotas é paliativo, e um paliativo ruim. Resolve, quando e se resolve, o problema daquela geração em específico, sem resultado relevante nas seguintes.

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E aí me perguntam… Qual a solução?

Não sou oráculo, mas para mim, basicamente, só se resolve um problema, qualquer problema, atacando suas causas, não seus efeitos. Neste caso, a solução começa pela Educação de base. Não adianta querer impedir incêndios fazendo todo mundo morar embaixo d´água.

Para mim, entre as diversas virtudes do governo Lula, um grave equívoco foi investir no ensino superior ao invés de focar na Educação de base. Qualificar professores, incentivar debates sobre currículo, respeitando inclusive diferenças regionais.

Alfabetizar é o primeiro passo. Hoje temos milhares de profissionais (de todas as etnias) que não dominam minimamente a nossa belíssima língua portuguesa. É complexa? Sim, mas se formos pensar, nosso calendário também é, e ninguém confunde minutos, com semanas, com anos, estações do ano, com dias. Não se pode exigir que alguém saiba conjugar verbos e identificar uma oração subordinada adverbial causal se ela não souber usar a letra “x”, ou “ç”, ou “ss”, para ficar em “problemas” de alfabetização.

É um processo longo, mas com um sistema de alfabetização estruturado e funcionando, podem vir quantas gerações virem, este problema será cada vez menor. Aí sim, vamos pensar em matemática.

Eu sou um grande partidário da ideia: “Criança não gosta do que não entende”. “Não gostar” ou menosprezar alguma matéria escolar é nada mais do que um mecanismo de defesa contra algo que nos desafia de forma aparentemente intransponível. O problema é que, se nos primeiros anos algo ficou sem compreensão, não vai ser no ensino médio que a coisa vai ficar mais fácil. Aliás, adultos também não gostam do que não entendem, mas o assunto aqui são os pequenos, que se tornarão os “grandes”.

Matemática (e as disciplinas que são baseadas nela como Física, Química e, em algumas áreas, Biologia) é uma das coisas mais lindas que o homem já produziu. Colocar o mundo em fórmulas, dividir o que simplesmente acontece (como os dias, as noites, o clima, o tempo, as estações, as distâncias, a velocidade) é sensacional de tão simples. Quando Deus criou o mundo, ele não tinha nem uma tabuada nem uma tabela periódica na mão.

Matemática, acima de tudo, desenvolve o raciocínio. E este raciocínio bem estruturado facilita e MUITO para a criança, futuramente, compreender ciências, história, geografia, literatura, biologia, química e física.

Alunos que compreendem ao invés de decorar aumentam sua capacidade de aprendizado e seu nível de exigência em relação aos professores. Isso também pode gerar uma bola de neve que resultaria numa qualificação de todo o sistema de ensino. Claro, sem menosprezar nem esquecer a valorização do professor e da estrutura escolar (a Escola em si).

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É um processo demorado? Certamente que é. Mas aí sim, teremos cidadãos, sejam brancos, negros, pardos, amarelos ou vermelhos, muito melhor preparados.

E depois de passado todo esse processo de investimento em Educação desde a base até o Ensino Médio, poderemos falar em sistemas de cotas?

Bom… poder, claro que poderemos. Mas será que precisaremos?

O título vem de outro texto que eu escrevi  em 2004 que se chamava Uma questão de Educação

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O bom, o mau e o feio

12/12/2010

A criminalidade do Rio de Janeiro. Já há algum tempo, eu vejo muitas pessoas dizendo que jamais voltariam – ou, as que nunca foram, jamais iriam – ao Rio de Janeiro. Eu, que fui para lá algumas vezes, e adoro, penso… “bah, mas perder aquele visual, aquele clima, aquele astral…”.

Sim, por que digam o que quiserem, mas a zona sul carioca é diferente. É. Ponto. Eu geralmente vou para a casa de amigos em Niterói, e um ou dois dias por vez, pego a balsa e tenho meus momentos “astrais” na Cidade Maravilhosa. Com outros amigos, com novos amigos ou mesmo sozinho… A questão, para mim, é que aquele dia, do passeio, é especial.

Quem diz que não iria ao Rio me pergunta: “Tu não tem medo da violência?”. Tenho, tenho muito medo. Uma das minhas preocupações é sempre a volta, que geralmente é à noite ou ao anoitecer (e aí tem uma amiga da Cidade a quem eu sempre serei muito grato). Contudo, adoro aquilo lá. Uma vez peguei uma daquelas vans.. Eu, o motora e o cara da porta. Pensei: “Pronto, morri”. Felizmente eles eram, naquele momento, gente honesta, e me deixaram onde combinamos pelo preço que combinamos.

Eis que de uns anos pra cá, o governador Sérgio Cabral resolveu limpar a Cidade. Visando a recepção à Copa do Mundo e à Olimpíada certamente, mas visando também cartaz político. As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) merecem aplausos? Certamente que sim. A questão é que elas resolvem um problema da Cidade do Rio de Janeiro, mas não o problema todo.

Em fins de novembro o governo carioca resolveu retomar o controle sobre o “Complexo do Alemão”. Complexa, pois, é a análise disso.

Tanques de guerra – que, como já foi bem observado, os cariocas fotografam como se fosse exposição de arte -, armamento pesado, Marinha, Aeronáutica, Bope e a própria polícia militar. Tudo pronto? Então vamos!

Entraram.. patrolando, como tinham que ter feito desde 1500. Encontraram toneladas de drogas, contrabando e armas – algumas muito melhores que as deles – mas… pouquíssimos traficantes. De alto escalão então? ZERO.

É aí que entra o título do texto. O bom, nesta história, é a pacificação dos morros cariocas. Dá mais segurança para quem vive lá, ajuda a livrar (mas por si só não salva) uma geração interminável de crianças do mundo do tráfico, e melhora a segurança da cidade toda, dos turistas estrangeiros dos grandes eventos, a minha e a de quem disse que nunca iria ou numa voltaria.

O mau é que, ao não prender grandes traficantes e, ainda, ao avisar que “amanhã vamos entrar” (como adoram fazer), até resolveram um problema – já citado – mas, em relação ao crime organizado a diferença é nula. Ninguém desaparece no vento, nem num portal feito a Caverna do Dragão.

Se não pegaram, é porque para algum lugar eles foram. E aí, não me venham dizer que foi uma ação efetiva contra o tráfico de drogas porque não foi. Foi unicamente, e isso não desmerece o louvor à operação, uma ação de tomada de posse por parte do Estado do Rio de Janeiro de um território que nunca deveria ter saído do seu controle. Ponto.

É muito cinismo dizer que agora tudo é lindo e não existe mais tráfico. Ilusão. Os traficantes continuam por aí..

E essa de mandar os presos para longe, hein? Acre, Rondônia, Paraná… Bah, bela idéia… enquanto não inventarem o avião e, principalmente, o telefone celular, esses caras tão realmente fora de circulação!! (Ops!)

O feio? O feio é a macaquice da Rede Globo (e de qualquer outra emissora). Cenas ridículas das operações “ao vivo”. Isso sem contar com a repórter que entrou no túnel escoltada por três homens do Bope “fantasiados” pra fazer uma matéria que, no fundo, não disse NADA. Mostrou a entrada do túnel.. e? Tá faltando trabalho pros rapazes, é isso?

As pessoas confundem informação:

“os traficantes fugiram por túneis como este”, e close da câmera no túnel.

Com show business:

“foi neste túnel que o fulaninho de tal, bilionésimo quinto na hierarquia do tráfico, chefe do carinha que foi preso, escapou. Essa pegada aqui deve ser dele, e…” Mas hein?????

(E isso que até o Mr. M eles prenderam. Será que agora eles aprendem os truques certos?)

Só porque isso – graças a Deus – não é comum no Brasil, não quer dizer que precise tratar como uma novela do Gilberto Braga ou Linha Direta, né? O repórter quer fazer algo útil? Cobra! Vai no governador, vai no prefeito, vai no cara do Bope.

Eles vão.. mas vão pra dar tapinha nas costas, elogiar. Tem que ir – também – pra perguntar “E aí, e agora? Vão continuar atrás dos desgraçados ou vão ficar por aqui?”. Jornalismo de guerra – pois é este o caso – não é a mesma coisa que jornalismo geral, que vai falar de uma chuva ou sobre como um prédio desabou. Este sim, vai lá e descreve porque descrever faz diferença. Assim como jornalismo esportivo, que terça-feira tem que inventar qualquer porcaria porque não tem jogo. Jogo é jogo, mas guerra é guerra.

Enfim. Eu torço muito pelo sucesso das operações da segurança pública do Rio de Janeiro. Mas gostaria muito, também, que fosse feito algo de prático pelo problema em sua origem, não apenas em seu efeito mais visível e “assustador” (para o brasileiro médio).

No fim das contas, eu torço pelo fim de situações que geram sacadas inteligentes como a que disse um amigo meu semana passada quando fomos ver Tropa de Elite 2:

“Eu só vou ali no cinema ver o Jornal Nacional e já volto”.

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Interrompemos a nossa programação…

26/09/2010

O  meu dia tem uma certa rotina.

Acordo, tomo café, saio para trabalhar. Trabalho, almoço, volto pro trabalho. Seis da tarde: tchau farroupilha. Volto pra casa. Aí varia um pouco… Ou vou pra internet, ou dou uma volta, ou vou ler.. Assisto o Jornal Nacional (às vezes de costas, por causa da posição do computador, hehehe) e aí…

E aí, nos últimos 30 dias, sempre uma surpresa, e sempre a mesma. Quando o Bonner diz “boa noite” eu já estou pensando em Betes, Claras e Totós (sim, eu assisto Passione)..  só pra, dois segundos depois, ser lembrado – pela própria TV – do “maldito” horário político.

Urna eletrônicaNoves fora, existem prós e contras na obrigatoriedade do horário político. Não é uma questão resolvida, do tipo “tirem e deu”, como a maioria acha que pensa. Não.

Alguém nega que a campanha só começa MESMO quando começam os programas? Ainda que o disse-me-disse venha de 2009, e que o prazo legal comece em julho, é só depois da programação de rádio e TV ser avacalhada pelo horário gratuito que o povo se toca do que tá acontecendo… Agora, tira o horário político, vamos votar em quem?

Horário reservado

A má utilização por parte dos partidos e a obrigatoriedade de ser no horário nobre num país democrático eu até concordo que sejam pontos questionáveis.  Contudo, que tem que haver uma forma de todos terem a chance de ter alguma noção do que está acontecendo.

Partidos políticos

Abre parênteses. Vale dizer que a má utilização (assim como a qualidade dos eleitos) vai muito de quem vota. Quem se informa (e se forma, mas isso é outra discussão), teoricamente vota melhor, o que melhora a qualidade dos eleitos, e isso acabará melhorando a qualidade dos programas. É um círculo vicioso..

Na política, como qualquer canal de TV ou prestação de serviço, o nivelamento é por baixo: quanto menos qualidade se exigir, menos se recebe de volta. fecha parênteses.

Aos maníacos tecnológicos – até certo ponto, como este que voz fala – eu digo: a internet (com seus twitters, facebooks, iPads e smartphones) não tem todo esse alcance ainda. Até acho que para a próxima eleição presidencial ela esteja mais “diluída” na campanha, mas hoje é tudo muito novidade, acesso bastante restrito (dentro do universo de 130 milhões de eleitores) e também com presença bastante superficial (e optativa).

Partidos políticos

Eu até entendo os que dizem que é uma questão de direito, e não de dever, ter acesso a informação. Contudo, quando falamos de eleições, antes de estar falando de direito à informação, estamos falando de cidadania.

Não estou defendendo aqui que todos vejam os horários políticos. Não, a nossa democracia nos garante o direito de não assistir. Contudo, acho que é função do governo sim, garantir que todos tenham condições de ter uma visão “menos pior” do todo, e não deixar apenas cada um com o seu achismo e deu. Eu mesmo mudei pelo menos um dos meus votos da eleição da próxima semana “graças” ao horário político.

Partidos políticos

É importante ressaltar, antes que eu seja criticado por isso, que não estou fazendo apologia a qualquer coisa DESTA eleição, estou falando da existência do programa eleitoral gratuito em si. Afinal, quem me conhece sabe que eu não estou satisfeito com o rumo que a eleição está tomando segundo as pesquisas… e é claro que o horário político é determinante nesta tendência.

Existem vários aspectos paralelos à esta discussão. A qualidade das casas legislativas (e, também, das executivas), o caso Tiririca, a eleição presidencial 2010, voto obrigatório… enfim, incontáveis. Eu prometo que tratarei cada uma delas!

Nem que seja nos próximos quatro anos….

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Independência ou Cuba!

27/04/2009

Naquele dia eu saí de casa decidido: vou procurar um livro sobre Cuba! Não sobre Fidel, não sobre Che Guevara, sobre Cuba! Eu nasci já dentro da (época da) “revolução cubana”, mas tinha curiosidade de saber: afinal, o que é Cuba? Por que é tão importante? Fidel Castro, ok.. mas quem? Como? E, afinal.. eles foram ou não foram um estado norte-americano?

Encontrei. Nunca tinha ouvido falar, mas depois de procurar muito em toda a livraria (nos setores de “história”, “américa latina”, “literatura estrangeira”, “biografias”) eu encontrei “Cuba – Uma Nova História”, do jornalista inglês Richard Gott.

Fiquei bastante interessado no livro. Ele se propunha a analisar Cuba desde o descobrimento o início do século XXI. E, sendo um autor inglês, imaginei que não haveria “parcialidade” na análise.

Pra começar, como eu pensava, a colonização espanhola na Ilha sempre foi basicamente de exploração, como a portuguesa no Brasil. A diferença básica é que, por ser um país muito menor, não demorou e a “importação” de negros trouxe “problemas” pra minoria branca.

No fim do século XIX, um complexo jogo de interesses levou Cuba a uma posição de “semi-independência”. Eram independentes da Espanha, mas legalmente dependentes do governo norte-americano graças a uma emenda incluída, por Washington, na primeira constituição da república cubana.

A crise de 1929 também “ajudou”. As exportações de açúcar – tradicional monocultura cubana até então – caíram a quase zero, o que gerou diversos grupos armados de guerrilha que buscavam a “verdadeira liberdade”.

É neste contexto que, duas décadas depois “surge” Fidel Castro. A idéia básica era: acabar com a interferência americana. Como? Tirando Fulgêncio Batista do poder com a Revolução. A guerrilha vai até 1959, quando Fulgêncio deixa o poder e Fidel, acompanhado por Che Guevara, assume o governo da Ilha.

Ao contrário do que muitos pensam – e outros querem fazer acreditar – Fidel Castro não é comunista. Na verdade, ele é “fidelista”. O comunismo russo foi o caminho que o general encontrou para fazer valer seus interesses, que tinham como principal objetivo manter seu país longe do alcance norte-americano sendo quase vizinho de Miami. Tanto é verdade que o comunismo acabou, e “Fidel” não…


O líder soviético Nikita Kruschev e o presidente
norte-americano John F. Kennedy

O fracasso da invasão americana à Baía dos Porcos em 1961 e, principalmente, a crise dos mísseis em 1962 – onde Kruschev (URSS) e Kennedy (EUA) jogaram com o destino do mundo e Cuba, no fim, serviu apenas como tabuleiro – explicam, de certa forma, como os Estados Unidos “permitiram” que um país menor que a Flórida (e, para efeito de comparação, do tamanho do Acre) se mantivesse “intacto”, ainda que abertamente contrário aos seus interesses.

É interessante destacar que Che Guevara, por sinal, não é o amigo de infância de Fidel que se pinta hoje. O argentino (de quem eu já falei aqui) ajudou Fidel e participou de guerras na África e na América do Sul sempre no seu idealista projeto pessoal de “fim do imperialismo”. Por outro lado, Che sim, acreditava no comunismo.

O fim dos anos 1980 marcam o fim da Guerra Fria com a “vitória” do capitalismo sobre o comunismo e o esfacelamento da União Soviética. A década de 1990 foi um período muito conturbado em Cuba, em que o país lutou interna e externamente para se manter “livre” e redefinir seu papel na nova geo-política internacional.

No fim da primeira década do século XXI, este papel ainda não está bem definido. Para Richard Gott, entretanto, ainda que Cuba nunca tenha sido um país “independente” (pois mudou das mãos espanholas para as americanas e para as russas), não haverá grandes mudanças na Ilha nos próximos anos. Fidel, no poder há 50 anos, há muito já não seria o dono do poder, mas um dos seus principais líderes e, mais do que isso, um grande símbolo cubano.

Segundo Gott, a mudança que todos esperam para o dia da morte de Fidel já aconteceu e, no melhor estilo “mudar não mudando”, ninguém notou. A questão é que, apesar de tudo, o povo cubano tem um imenso orgulho de sua história de lutas e revoluções. Isso, na opinião do autor de Cuba transcende o que olhando de fora pode parecer uma ditadura opressiva e manipuladora.

Quer dizer que Cuba é um país feliz? Uma utópica disneylândia? É claro que não. Mas a análise de que a Cuba atual serve, em certa medida, aos interesses de quem domina, lá dentro, o país hoje, não pode estar de toda errada.

Neste contexto, as recentemente anunciadas mudanças nas políticas norte-americanas em relação a Ilha são, ao meu ver, uma tentativa de “matar a revolução de sede”. Abrir o mercado de comunicação norte-americano à Cuba atende à premissa de que, depois dos descobrimentos na Idade Média (Espanha) e da guerra tecnológica do século XX (União Soviética), no novo século quem tem a informação tem o poder.

Já que não se pode obrigá-los, façamos com que eles queiram o que nós entendemos como ideal sócio-econômico. No fundo, no fundo… mudam as mãos, mas o pescoço é o mesmo.

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Vale a pena ver… de novo???

24/04/2009

Alguém aí está acompanhando a nova novela das 7? Caras e bocas. É, como todas as novelas do horário, um enredo babaquinha com ganchos esdrúxulos como o pai que foi sem nunca ter sido, o macaco-pintor e as alpinistas sociais.

Essa novela é uma versão romântica e lúdica de uma novela que está passando no Brasil desde a chegada de Cabral, que está no ar desde que Santos Dummont inventou o avião, e que é ambientada em Brasília desde 21 de abril de 1960.

Caras-de-pau e Bocas-na-botija

A história é parecida. Essa fala de um monte de babacas que afirmam que são (honestos) sem nunca terem sido e, feito macacos, pintam e bordam nas costas do povo. Enquanto estes babacas ficam cada vez mais ricos, os coadjuvantes (que se multiplicaram exponencialmente ao longo do enredo) se descobrem cada vez mais cegos. Cegos, aliás, como a personagem que, na novela global, propõe um debate de inclusão social muito positivo. Seria essa metáfora proposital?

Nos capítulos mais recentes: mensalão, dólares na cueca, grampos da Abin, sanguessugas, moeda verde, cartões corporativos, satiagraha e, é claro, a farra das passagens aéreas. Tá desatualizado? Calma.. pelo jeito essa novela tá longe do fim, e a maior parte do enredo já não tem nenhuma importância…

Falemos, pois, do capítulo mais recente: a farra das passagens. De repente, ninguém sabe bem como, se “descobriu” que os nobres congressistas se esbaldam distribuindo passagens aéreas para familiares, conhecidos e (ora, por que não?) celebridades.

Ocorre que a cota de passagens a que cada um tem direito, prevista na noma do Congresso Nacional é pessoal e transferível, certo? Afinal, se a mesma norma se omite sobre como não se pode usar a tal cota, então vale tudo, certo? Hehe.. só pra variar, errado…

Primeiro ponto: a cota é impessoal. Ou seja, não é da pessoa do congressista, mas da pessoa enquanto congressista. Se por acaso o bom senso e o respeito aos eleitores e ao dinheiro público não for suficiente para o semancol, é só lembrar do famoso princípio da moralidade administrativa.

Diz o artigo 37 da Constituição Federal: A administração pública (…) de qualquer dos Poderes da União (…) obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Segundo este princípio, todos os servidores públicos (do presidente da República ao faxineiro de uma prefeitura de interior) devem primar pelo uso racional e específico do patrimônio público ou do que dele derivar.

Segundo: obviamente, é intransferível. Nós elegemos uma única pessoa para nos representar e ter direito às – ainda por cima muitas vezes questionáveis – benesses do cargo, e não toda a sua família ou a Adriane Galisteu.

Nessa vale até generalizar: Tanto o presidente do Congresso Nacional e líder governista Michel Temer (PMDB-SP) quanto o corregedor-geral da Câmara e líder oposicionista ACM Neto (DEM-BA) admitiram ter feito “mau uso” da tal cota de passagens. Ou seja: não escapa ninguém!! (infelizmente, nem nós…).

Alguém lembra da época em que o ex-presidente Itamar Franco queria ressucitar o Fusca? Diziam, as más e espirituosas línguas que o então presidente queria “ressucitar o Fusca por que não sabia dirigir Brasília”. Pois é…

Pensando bem… este escândalo das passagens aéreas foi um ás do autor dessa grande novela, apenas talvez mal explorado. Afinal, existia – com o perdão do trocadilho – uma enorme pista sobre este desfecho desde abril de 1960. Todo mundo lembra que Brasília foi uma cidade pré-desenhada, certo?

Eu imagino que, na idéia (nada) original, o último capítulo seria assim:

Estourado o escândalo, o povo inerte se revolta silenciosamente, com aquele clima de “não vai mudar mesmo…”. Enquanto isso, a cena final começa dentro da Câmara enquanto os nobres congressistas (os tais babacas) iniciam mais uma votação de prioridade incerta e intenções não-sabidas. Baixa o som e a imagem começa a se afastar do plenário, saindo da janela da Câmara e subindo. É noite, e Brasília está iluminada.

A câmera continua seu movimento “pra trás”, se afastando cada vez mais. No final, vê-se a cidade da janela de um avião.. e qual não é a surpresa quando se tem a visão completa da cidade…

Ué.. queria que tivesse formato de quê? De um ônibus?

FIM
(Ou ao menos, deveria ser…)

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