Pra começar, uma pequena introdução ao assunto para os que não acompanharam os fatos que me levaram a escrever este texto:
O cantor, compositor, escritor e artista Gabriel o Pensador foi convidado para ser o Patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, que foi realizada em maio na cidade serrana.
Alguns meses antes, após a reclamação de um “poeta” gaúcho sobre o cachê que seria dado ao Gabriel teoricamente por ser o Patrono do evento, o próprio Gabriel decidiu abrir mão do dinheiro, cancelando a distribuição de livros e o show que faria na cidade (inclusos no custo do teórico cachê), e anunciou que sua participação estava mantida e seria mais simples (sem livros nem show), porém de graça. O rapper esteve presente inclusive à abertura da Feira, e tudo transcorreu naturalmente, sem a presença do injuriado “poeta”.
Encerrando o assunto, Gabriel lançou, na abertura da Feira, o clipe da sua nova música, “Linhas Tortas”, onde fala da sua relação com a literatura e sobre a polêmica.
Agora sim, começando…
A polêmica que envolveu o Gabriel O Pensador está inserida em algumas discussões que eu considero importantes.
Pra começar, Bento Gonçalves é uma linda cidade do interior do Rio Grande do Sul e, antes de ter a Feira do Livro como um evento-símbolo da cidade, submerso em tradições como é o caso de Porto Alegre, a realiza com o propósito prático, primordial e direto de ser um mecanismo para incentivar seus cidadãos, de todas as idades e classes sociais, à leitura.
Pensando nisto, este ano a Prefeitura convidou Gabriel O Pensador para ser o Patrono. Além da presença ilustre, a possibilidade de distribuir livros para as crianças do município e o show que seria realizado seriam acréscimos interessantes ao evento. É claro que tudo isto teria custo, mas a prefeitura optou por assumi-los.
Como o próprio Gabriel diz na música recém-lançada, “na Feira eu vendo livro, no show eu vendo ingresso”. Sim, pois ambos são parte do trabalho dele, e ambos devem e merecem ser remunerados. Um certo “escritor” gaúcho, no entanto, achou – muito ingenuamente na minha opinião -, que o valor (mais de R$ 160 mil) publicado no Diário Oficial como direcionado pela Prefeitura de Bento Gonçalves ao patrono da Feira fosse 100% o seu cachê.
Ingenuidade, para dizer o mínimo. Meu caro escritor, a primeira atitude que todos SEMPRE devemos (ou deveríamos) ter quando recebemos qualquer informação é mandar o Tico chamar o Teco e tentar entender, por dois segundos, o que está acontecendo. Não dói, eu garanto.
Ao ser chamado, o Teco perguntaria ao seu irmão:”Peraí, cara.. cento e sessenta vezes?“
E continuaria: “Não é assim, meu. Se te oferecem um dinheiro para fazer alguma coisa… e oferecem 160 vezes mais para outra pessoa fazer basicamente a mesma coisa… Alguma coisa esta errada. Será que é para fazer a mesma coisa? Repara… não é o dobro, nem três vezes mais, nem dez vezes. São CENTO E SESSENTA vezes.”, ressaltaria o pequeno neurônio.
E eu adicionaria: Para quem mesmo? De onde? Será que não tem outros serviços e custos aí?
Vale ainda uma pequena lembrança ao reclamante: O que te fizeram, na tua opinião oferecendo pouco dinheiro ou te subvalorizando dentro da tua visão míope sobre o dinheiro que seria pago ao Gabriel, foi um CONVITE para participar do evento, não uma convocação. Como se diz em Florianópolis (o sotaque é importante aqui): “Se queres, queres, se não queres, dizes”.
Tá ruim o dinheiro, o evento não é interessante, tá com frieira? Agradece, declina e segue a tua vida, rapá…
É fundamental cada um saber o seu lugar, o que deve ser dito, como e quando deve ser dito.
Durante a polêmica, teve gente que veio dizer “e porque não chamaram um escritor gaúcho?”. Bom, pois eu inverto a pergunta: “Por que chamar um escritor gaúcho?”. Não que não se deva, mas a pergunta é pertinente e direta. Por que, por qual razão?
Se houver uma razão ótimo, sou totalmente favorável. Mas “gaúcho” não é sinônimo de qualidade. Temos muitos ótimos escritores, sem dúvida, mas também temos “escritores”, e é claro existem vários ótimos escritores fora do Rio Grande do Sul também.
O que levou Bento Gonçalves a convidar o Gabriel O Pensador não foi muito diferente do que a levaria a convidar um gaúcho (o que certamente já aconteceu, mais de uma vez, nas 26 edições anteriores). A questão é que houve um propósito, um objetivo, em chamar especificamente o Gabriel. E o Gabriel, assim como o “escritor”, foi apenas convidado e aceitou. Até porque o tamanho do “cachê”, no fim das contas, não tinha nada a ver com a participação dele como Patrono…
A distribuição de livros gratuitos para as crianças carentes do município e o show, também gratuito para o público, certamente estão sim, inseridos no contexto de literatura e, porque não, de alfabetização literária, tão importantes e totalmente condizentes com o perfil de um evento como este, principalmente quando realizado numa cidade do interior.
Existia a questão da visibilidade que uma presença nacional traria ao município? Sim, mas o que há de errado nisso? Bento Gonçalves vive, além da área vinícola, fortemente do turismo. Por que não ligar uma coisa à outra?
Tem outra coisa, da qual inclusive o Gabriel também fala na música. Às vezes parece que é feio um artista (e aí se incluem escritores, desenhistas, músicos e muitos outros) receberem dinheiro pelo seu trabalho. Parece que as pessoas acham que por que não houve trabalho braçal, esforço físico ou por que no final não restou um produto material, sólido, finalizado, não houve trabalho. Pois houve, e houve muito. Trabalho intelectual é tão importante e difícil quanto trabalho braçal.
Ou pede para um marceneiro escrever um poema, desenhar uma charge ou compor uma canção. Vai sair ruim não por ele ser marceneiro, mas porque não é a dele… Deixem, pois, o marceneiro “marceneirando” e os compositores compondo e os escritores escrevendo…
Mais uma coisa que me incomoda é a quantidade de gente que entra em polêmicas sem saber bem do que está falando. Entra, se indigna, sai berrando… 15 minutos depois lê mais sobre o assunto, vê que tinha entendido errado (ou nem tinha entendido) e fica..”Aaaaaiiihhnnn… pois é, mas aí tá certo…”. Pô! Te informa antes, criatura! Custa?
Já acho um saco quando vem de gente “leiga” que, no fundo, não tem obrigação de saber do que tá falando (apesar de que era só buscar a informação correta, geralmente acessível, ao invés de reagir feito um estilingue à primeira coisa que ver na frente), mas o que me mata mesmo é quando alguém que deveria saber do que está falando abre o berreiro.
Tipo… sei lá… um escritor reclamar do cachê do Patrono de uma Feira do Livro sem saber do que está falando. Pode reclamar, mas, como vale pro mané, te informa antes!! Jogar merda no ventilador pra ganhar mídia é ridículo…
Todo mundo sabe que sou fã do Gabriel. Sou mesmo, há quase 20 anos (o primeiro disco dele é de 1993). Contudo, nem por ser ele ou por eu ser fã, mas pra mim a atitude dele foi exemplar, do início ao fim. Não se envolveu na polêmica, não discutiu. “O problema é dinheiro? Fica com o dinheiro. Mas eu vou aceitar o convite que me fizeram, pois o público da Feira não tem nada a ver com isso” (com essa pequeneza, eu acrescentaria).
Talvez às vezes o Gabriel se expresse por linhas tortas, mas sempre com atitudes coerentes. É uma pena, para a população de Bento Gonçalves, que não se tenha feito a distribuição de livros afinal…
Eu li “Diário Noturno”, o livro de crônicas e poesias do Gabriel. Como sempre, ele fala da vida, das dúvidas e dele mesmo. É um ótimo livro, bastante lúdico também. O outro, cujo título é “Um garoto chamado Rorbeto” (assim mesmo, com o “r” no lugar errado) fala, inclusive, de inclusão social e preconceito infantil.. totalmente condizente com o público que seria “atingido” pela distribuição…
No fim, o “escritor” quis aparecer, quis fazer escândalo feito a Dona Bela da Escolinha do Professor Raimundo, e acabou prejudicando muito mais do que ajudando. Enquanto isso, o Gabriel foi à Feira, participou, interagiu e fez a sua parte. Além de ter aproveitado para lançar o clipe e a música “Linhas tortas”, que fala claramente da polêmica sem se direcionar a ninguém…
É…. vai ver, no final, o tal “escritor” só pensa… naquilo ($$$$$$)….




A escrita joga com os pontos de vista, ora com o narrador falando em primeira pessoa no masculino, hora no feminino, conforme o personagem que representa naquele trecho. E a mudança, muitas vezes, ocorre de um parágrafo para o outro, sem aviso. Longe de significar um problema, o texto é tão bem construído que vale a analogia apresentada no título desta crítica. Puro talento do autor…























Pois eis que eu encontrei, na Feira do Livro de Porto Alegre 2009, o livro que, de certa forma é a continuação daquele. O título, e a mensagem é: ”Um otimista incorrigível” (“Always Looking up: the adventures of an incurable optimist”, no original, em inglês).

Ao chegar nos Estados Unidos, resolveu se informar. E, desta dúvida aparentemente trivial, nasceu “Breve história de quase tudo” (A short story of nearly everything, Companhia das Letras, 2005). Em dois anos de intensa pesquisa, Bryson decidiu explicar o óbvio, para leigos.







