
Será.. só imaginação?
03/04/2010Em tempos de Fresno, Strike, NXZero e Inimigos da HP eu fico pensando.. Será que a música piorou ou eu cresci? Não é possível que, no meu tempo, a música fosse tão ruim assim… ou é?
Eu acho que não. Essa semana, por exemplo, um dos ícones da minha geração, Renato Manfredini Russo, faria 50 anos. É estranho dizer “da minha geração”, mas considerando que ele morreu há quase 14 anos.. a juventude atual não o conheceu. Portanto, é sim “da minha geração”…
Renato Russo não está mais entre nós e, graças ao bom senso de alguns (Dado Villa-lobos e Marcelo Bonfá talvez?), a Legião Urbana também não existe mais. Contudo, nada do que existe hoje no Brasil se compara a eles. Se qualidade músical é algo relativo e pessoal, nenhuma dessas bandas do século XXI no pop-rock brasileiro tem a relevância ou o respeito geral que Renato Russo tinha. Eu, particularmente, não sei o nome de nenhum dos integrantes de quaisquer das bandas que eu citei no início deste texto (fico satisfeito (e não feliz) por ter me lembrado do nome das bandas).
O Legião é, em grande parte, fruto da redemocratização do país. Do vulcão musical que foi Brasília no início dos anos 80 (que, mais tarde, foi para o Rio de Janeiro e, depois, para Minas Gerais). Paralamas do Sucesso e Capital Inicial também são ícones deste “movimento”, mas nem Herbert Vianna nem Dinho Ouro Preto são considerados do nível de Renato Russo.
Quando querem transformar / Dignidade em doença
Quando querem transformar / Inteligência em traição
Quando querem transformar / Estupidez em recompensa
Quando querem transformar / Esperança em maldição:
É o bem contra o mal / E você de que lado está??
(1965 (Duas Tribos) – álbum: As Quatro Estações (1989))
O livrinho da coletânea “Mais do mesmo”, lançado postumamente em 1998, dizia algo como “várias músicas que cantarolamos sem saber bem de onde vêm até que descobrirmos ser tudo Legião Urbana”. Grande verdade. Principalmente as mais clássicas como “Eduardo e Mônica”, “Faroeste Caboclo”, “Pais e filhos”, “Quase sem querer”, “Tempo perdido” e “Será”.. pareciam estar desde sempre na mente das pessoas, muitas vezes antes de se saber de quem eram.
Esqueci de alguma? Não, esqueci de várias. Geração Coca-cola, Vinte e Nove, Dezesseis, Monte Castelo, Química, Canção do Senhor da Guerra, Eu sei, Que país é este, Há tempos, Índios… (e ainda faltam dezenas…).
O próprio Renato Russo brincava com a simplicidade das suas músicas. No disco ao vivo “Como é que se diz eu te amo” (2001, gravado em 1994) ele diz: “Legião Urbana: como aprender várias músicas com apenas 3 acordes”. Sobre o suposto papel de líder da Geração Coca-cola, no mesmo disco, ele diz: “As pessoas acham que eu sei todas as respostas, mas eu não sei qual é a pergunta…”.
Renato Russo nunca compôs “pra galera”. Ele expressava o que sentia de uma forma muitas vezes crua e cruel. Mesmo as suas diversas canções que contam histórias sempre têm algo para dizer. Com quem ele falava? Para mim, com ninguém. Ocorre que ele poetizava angústias de toda uma geração, ou talvez, de uma época. Várias frases de músicas dele são, para mim e para muita gente, verdadeiros mantras. É incrível que uma mesma pessoa tenha conseguido transformar em poesia dúvidas, angústias e medos tão comuns e, ao mesmo tempo, tão íntimos e complexos.
Uma coisa é verdade. Tocar Legião Urbana é fim de festa. No fim dos anos 1990 era até piada… Se, numa festa, alguém colocasse Legião, não que alguém questionasse a qualidade musical, mas era hora de acender a luz e ir embora. Legião é poesia, não dança. É algo introspectivo, para saraus, jantares, conversas de bar… não para festas.
Se lembra quando a gente / chegou um dia a acreditar
que tudo era pra sempre / sem saber
que o pra sempre, sempre acaba.
(Por enquanto – Legião Urbana (1985))
Faz tempo que eu não paro para ouvir Legião Urbana. Contudo, como eu citei acima, volta e meia me pego cantarolando alguma música, ou dizendo alguma frase que, quando paro pra pensar, é de outra música da Legião.
Por razões óbvias, há mais de uma década não sai nada novo da Legião (exceto regravações), mas mesmo assim, eu já me peguei entendendo uma música “nova”.. Mesmo as que eu passei a vida inteira escutando, mas nunca tinha parado pra ouvir… Poucas bandas têm essa capacidade…
Agora eu estava procurando uma frase para terminar este texto, e fui atrás de frases do Renato. Grandessíssimo erro. Nas frases, encontrei as músicas. E é impossível não citar outras vááárias… Vou fechar citando uma das frases, para mim, mais emblemáticas do Legião:
“Toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor”
(Quando o sol bater na janela do seu quarto – As Quatro Estações (1985))
Mais uma vez, uma grande verdade. Muitas coisas doem. Tanto fisica, mental ou espiritualmente. Grande parte delas, entretanto, doem mais justamente por que a dor, com o perdão do trocadilho, dói. A vontade de que pare de doer, e a aparente eternidade da dor é que a tornam, muitas vezes, tão mortal. Além disso, ao passo em que os momentos felizes passam num piscar de olhos, os tristes parecem intermináveis.
Concluo, com profundo alívio, que a resposta da pergunta inicial deste texto é mesmo não. Não, não é só imaginação. Por mais que eu não conheça praticamente ninguém da cena do pop-rock atual até por não prestar mais atenção, é inegável que – tirando elogios do Faustão – nenhum deles se destaca nesse mar de celebridades instantâneas… Por quê? Bem…
Quem um dia irá dizer que existe razão
nas coisas feitas pelo coração
E quem irá dizer que não existe razão?
(Eduardo e Mônica – Dois (1985))








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Fabinho, eu adoro a músca “Hoje a noite não tem luar”. Acho uma fofura, mexe muito comigo! Belo texto! Um beijo