Bill Bryson estava sobrevoando o Oceano Atlântico. Distraído, olhava pela janela do avião, pensando no que tinha para fazer naquela viagem. De repente, lá embaixo, uma coisa lhe chamou a atenção. No ponto onde estava, tudo o que via era a água salgada do mar. Foi então que ele reparou que não sabia algo aparentemente óbvio. Por que cargas d´água – com o perdão do trocadilho – a água do mar é salgada?
Ao chegar nos Estados Unidos, resolveu se informar. E, desta dúvida aparentemente trivial, nasceu “Breve história de quase tudo” (A short story of nearly everything, Companhia das Letras, 2005). Em dois anos de intensa pesquisa, Bryson decidiu explicar o óbvio, para leigos.
Como sempre acontece na ciência, a resposta a uma pergunta traz novas perguntas. Respondida a questão do sal, pergunta: Qual a idade da Terra? Como se sabe?
A resposta dessa pergunta leva o leitor a um passeio pela história da geologia, que é o ponto de partida para uma longa viagem na companhia de diversas personalidades da história da ciência. Vejamos alguns, mais ou menos ordenados por área de atuação: Newton, Halley, Hubble, Einstein, Darwin, Mendel, Richter, Celsius, Fahrenheit, Kelvin, Mendeleev, Lavoisier, Pasteur, Parkinson e Linus Pauling.
Da idade do planeta para a geologia. Da geologia para a química, e da química para a meteorologia. Da meteorologia para o espaço. Distâncias, idade, forma, órbitas, presença ou não de atmosfera.
Vencido – da forma que é possível – o espaço, vamos para o nano-mundo. Uma célula tem, em média, aproximadamente dois centésimos de milímetro e, mesmo assim, é formada por zilhares de moléculas. Outra: no núcleo desta célula (portanto, num espaço que corresponde a uma pequena parte de dois centésimos de milímetro) existem moléculas de DNA que têm, cada uma, aproximadamente dois metros de extensão. Como isso é possível? Essa é a legítima pergunta cuja resposta é: só Deus sabe…
O que faz com que, até hoje, de todos os confins conhecidos do universo, apenas a Terra tenha vida ? Aliás.. o que define vida? Neanderthal, Cro-Magon, homo sapiens. O homem veio do macaco?
Um trecho interessante, e que dá a noção de o quão desimportante é a presença humana para o planeta, é a seguinte:
“É quase impossível para nós, cujo tempo na Terra se limita a umas poucas décadas animadas, conceber quão remota foi a explosão cambriana. Se você pudesse voltar no tempo à velocidade de um ano por segundo, levaria cerca de meia-hora para atingir a época de Cristo, e um pouco mais de três semanas para retroceder até os primórdios da vida humana. Mas seriam necessários vinte anos para chegar à aurora da vida. Ou seja, aquilo já faz muito tempo, e o mundo era um lugar diferente”(p.332).
Em outra parte:
“Se você imagina os cerca de 4,5 bilhões de anos da história da Terra comprimidos em um dia terrestre normal, a vida começa muito cedo, em torno das quatro da madrugada, com o surgimento dos primeiros organismos unicelulares simples, mas depois não avança mais nas próximas dezesseis horas. Somente quase às oito e meia da noite, com cinco sextos do dia já decorridos, a Terra consegue exibir ao universo algo além de uma cobertura irrequieta de micróbios.
Finalmente as primeiras plantas marinhas aparecem, seguidas vinte minutos mais tarde da primeira medusa e da enigmática fauna de Ediacaran (…). Às 21h04 entram em cena os trilobites (a nado), seguidos mais ou menos imediatamente pelas criaturas bem formadas de Burgess Shale. Pouco antes das 22 horas, plantas começam a brotar em terra firme. Logo após, faltando duas horas para o fim do dia, despontam os primeiros animais terrestres.
Graças a uns dez minutos de bom tempo, Às 22h24 a Terra é coberta pelas grandes florestas carboníferas cujos resíduos fornecem todo o nosso carvão, e os primeiros insetos com asas se fazem notar. Os dinossauros entram em cena pouco antes das 23 horas e dominam por cerca de 45 minutos.
Faltando 21 minutos para a meia-noite, os dinos desaparecem, e a era dos mamíferos começa. Os seres humanos emergem um minuto e dezessete segundos antes da meia-noite. Nesta escala, toda a história registrada não duraria mais que alguns segundos, e a vida de cada um de nós não duraria mais que um instante.”
É mole?
O livro não pretende trazer respostas definitivas – até por que isso nem seria possível. Contudo, ele se torna uma pequena enciclopédia que explica, de forma leve e profunda, como diabos (com que sorte e com que azar) viemos parar aqui.
Para quem gostaria de saber mais sobre tudo, mas não sabe por onde começar, eu o recomendo. Eu mesmo li ele lentamente, numa média de 30 páginas por dia, sempre que possível.
É o tipo de livro que muda.. ou, digamos, aperfeiçoa, a visão que se tem de mundo. Seja qual for o nosso entendimento sobre a vida, “Breve história” apresenta tantas nuances que é impossível não entender melhor ou repensar alguns conceitos que se tem.
Como o próprio livro diz, temos a mania egocêntrica de achar que a vida tem uma razão, e que a razão do universo é o ser humano. Arrogantemente, muitas vezes acreditamos que a nossa existência enquanto seres humanos é o objetivo e o sentido do cosmos.
Sem ter esse objetivo o livro estraçalha essa presunção. Somos apenas um estágio. Perigoso e a perigo; nocivo e salutar; eterno e efêmero. O que importa é que nós somos hoje. Não fomos ontem e não se sabe se seremos amanhã (aliás, muito provavelmente não seremos).
Mas afinal, por que existimos?
A resposta mais próxima da realidade, no fim das contas, é a simples e inexplicável: Por que sim.
E, neste caso, “por que sim” é sim, a resposta.



