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Cada um por Si(monal)

15/06/2009

Wilson Simonal. Um artista como poucos. É claro que a minha avaliação pode ser e é prejudicada por eu só ter conhecido ele de ouvir falar. Quando eu nasci, no fim dos anos 1970 ele já não fazia mais sucesso. Não que não merecesse, estivesse morto ou qualquer coisa assim, mas um provável e infeliz engano o levou ao ostracismo nacional em vida..

Um cara divertido. Simplíssimo, com cara de malandro, jeito de malandro e ingenuidade de malandro. Com uma voz surpreendente e um carisma que poucas pessoas no mundo têm, Wilson Simonal regia massas com uma facilidade incrível.

No palco, enquanto dizia para uma parte da platéia cantar “assim” e outra cantar “assado” (e sempre ao “alho e óleo, sem champignon”. Ou seja, com leveza, sem berrar) ele não estava controlando ninguém. Estava conversando com uns amigos, talvez brincando de jogral. O detalhe é que eram, digamos, 30 mil “amigos” lotando o Maracanãzinho…

Pilantragem. Uma mistura de samba com sei-lá-o-que, que Simonal transformou num estilo musical. As músicas não pareciam lá muito desenvolvidas artisticamente falando, mas eram dançantes e tinham a honra de disputar mercado com o ié-ié-ié de Roberto Carlos e companhia.

“Meu limão, meu limoeiro”, “Mamãe passou açúcar em mim” (com a sensacional versão em inglês: “Mother sprayed sugar on me”), “Nem vem que não tem” e, é claro, a famosa versão monossilábica de “País Tropical”, de Jorge Benjor, são alguns dos grandes sucessos do artista.

Às vezes é chato e pode até soar preconceituoso, mas Simonal é mais um dos vários artistas e personalidades (do Brasil e do mundo) que, antes de qualquer coisa, era, sempre foi e – até que o pensamento geral mude – continuará sendo… um negro.

Apesar e com consciência disso, Simonal fazia um sucesso estrondoso na virada dos anos 1960 aos 1970. Ele mesmo “brincava” com a questão do preconceito, mais para não deixar esquecerem que ele era sim, um negro, e nem por isso menos talentoso ou adorado.

Fez um dueto histórico com a cantora americana Sarah Vaughan e prestou uma homenagem ao então recém-assassinado Martin Luther King (numa canção que dedicou ao filho, Wilson Simoninha). Ele não chegava a ser um ativista, mas nunca esqueceu suas raízes e de sua origem pobre.

Foi convidado e aceitou viajar  com a seleção brasileira para a Copa de 1970, no México, como amuleto. Em 1971, entretanto, foi expurgado.


Trailer do documentário:
“Simonal: Ninguém sabe o duro que dei”

O fato: Simonal ganhava rios de dinheiro. Tinha patrocínios polpudos e fazia shows arrasadores. Num determinado dia, ele descobriu que estava sem grana, zerado, quebrado. Não teve dúvidas: mandou uns “amigos” darem uma coça no seu contador.

Os tais amigos – que prestavam serviço também ao Dops – fizeram o solicitado. Torturaram o contador até que ele confessasse (sinceramente ou não) o roubo.

O problema: a esposa do contador deu queixa na Polícia Civil. Simonal acabou processado.

O erro: no depoimento ao delegado, Simonal disse que tinha amigos no Dops, como quem quer dizer que nada aconteceria a ele.

Agravantes: o sucesso “alegre e despreocupado” em pleno AI-5, a viagem com a vitoriosa seleção brasileira de Médici ao México em 1970 e o ufanismo de músicas como “País Tropical” não depunham exatamente a favor da sua neutralidade do cantor.

Verdade ou mentira? Agora não vem mais ao caso. O fato é que, no auge da repressão pós-AI-5, aquele foi o comentário mais infeliz possível. Zilhares de pessoas sumiam na mão do Dops, e a nova fama de dedo-duro acabou instantaneamente com a carreira de Simonal.

No primeiro show após o depoimento, foi vaiado e não conseguiu cantar. Foi limado, “esquecido”. Nem a esquerda, nem a classe musical, nem a direita. Ninguém levantou o dedo para contestar nada. Dali em diante, Simonal foi ignorado solenemente pelas massas e por todos.

Um dos grandes destaques do documentário é a entrevista exclusiva com o tal contador. O filme não se propõe a explicar ou defender um lado, mas a mostrar o que aconteceu antes, naquele momento e nos anos que se seguiram até a morte do artista, aos 62 anos, em 2000.

Eu nasci poucos anos depois disso, e mesmo assim levei ainda outros 30 para conhecer – superficialmente – Wilson Simonal.

Nos anos 1990, Wilson Simoninha – o filho – começava a fazer sucesso. Simonal ia aos shows sempre escondido, pois não queria prejudicar a carreira do filho… Aquilo que poderia ser o final feliz de uma carreira de sucesso (curtir o sucesso dos filhos) acabou sendo um final melancólico e, de qualquer forma, injustificado…

Na minha opinião, se fosse verdade o fato de ele ser informante do Dops, por que o governo também o deixou no ostracismo? E, como bem lembra Chico Anysio no filme, alguém conhece alguém que conheça alguém “entregue” pelo Simonal?

Outra coisa: existe mais alguém que tenha sido limado do convívio social em vida? Outro dedo-duro, torturador, político ou militante de esquerda? Artista, talvez? Acho que não… por que SÓ Simonal? Mesmo depois da ditadura, com anistias e parafernalhas, todos voltaram.. menos ele. Por quê?

Nos anos 1990 ele até conseguiu um documento do governo atestando não haver registros de seu nome nos arquivos do Dops e demais órgãos de repressão… mas aí, além de ser tarde, ninguém deu bola.

“Vivemos em uma imprensa que toma
o indício como sintoma,
o sintoma como fato,
o fato como julgamento,
o julgamento como condenação
e a condenação como linchamento”

Esse comentário de Artur da Távola no documentário mostra bem a pressa com que a imprensa brasileira – de ontem e de hoje – procura “resolver” os problemas do país. No caso de Simonal a culpa nem foi só da imprensa (ou do Pasquim, o qual Ziraldo e Jaguar tentam defender), mas parte da responsabilidade cabe a ela sim.

No documentário alguns amigos se dizem arrependidos de não ter levantado a voz a favor de Simonal. Eu acho compreensível, levando em conta o clima pesado e bipolar que o Brasil vivia na época. Vozes desconhecidas e isoladas dificilmente conseguiriam mais do que prejudicar a si próprios…

Os filhos (Simoninha e seu irmão, Max de Castro, também presentes do documentário) ressaltam que agora não importa encontrar “culpados”. A vida segue e, em todo o caso, Simonal já se foi…

Fui assistir ao documentário na semana passada com uma grande amiga que não gosta desse tipo de filme, mas disse que adorou “Simonal”. Dirigido por Claudio Manoel (sim, o “Seu Creysson do Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, “Simonal: Ninguém sabe o duro que dei” conta bem a história do biografado.

Depoimentos de Pelé, Chico Anysio, Toni Tornado, Nelson Motta, Miéle, Jaguar e Ziraldo, entre outros, fazem do filme um importante registro de uma parte da história do Brasil e da música brasileira.

Ele não era “da canhota”, como se referia – ironica e, talvez, irresponsavelmente – aos “da esquerda”. Também não há nada que prove -além de depoimentos de interessados – o fato de que ele seria “da direita”. Ele era, acima de tudo, Wilson Simonal.

Ingênuo? Mau caráter? No fundo, nunca se saberá.

Um comentário

  1. Muito bom… Parabéns… Bjinhos



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