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Independência ou Cuba!

27/04/2009

Naquele dia eu saí de casa decidido: vou procurar um livro sobre Cuba! Não sobre Fidel, não sobre Che Guevara, sobre Cuba! Eu nasci já dentro da (época da) “revolução cubana”, mas tinha curiosidade de saber: afinal, o que é Cuba? Por que é tão importante? Fidel Castro, ok.. mas quem? Como? E, afinal.. eles foram ou não foram um estado norte-americano?

Encontrei. Nunca tinha ouvido falar, mas depois de procurar muito em toda a livraria (nos setores de “história”, “américa latina”, “literatura estrangeira”, “biografias”) eu encontrei “Cuba – Uma Nova História”, do jornalista inglês Richard Gott.

Fiquei bastante interessado no livro. Ele se propunha a analisar Cuba desde o descobrimento o início do século XXI. E, sendo um autor inglês, imaginei que não haveria “parcialidade” na análise.

Pra começar, como eu pensava, a colonização espanhola na Ilha sempre foi basicamente de exploração, como a portuguesa no Brasil. A diferença básica é que, por ser um país muito menor, não demorou e a “importação” de negros trouxe “problemas” pra minoria branca.

No fim do século XIX, um complexo jogo de interesses levou Cuba a uma posição de “semi-independência”. Eram independentes da Espanha, mas legalmente dependentes do governo norte-americano graças a uma emenda incluída, por Washington, na primeira constituição da república cubana.

A crise de 1929 também “ajudou”. As exportações de açúcar – tradicional monocultura cubana até então – caíram a quase zero, o que gerou diversos grupos armados de guerrilha que buscavam a “verdadeira liberdade”.

É neste contexto que, duas décadas depois “surge” Fidel Castro. A idéia básica era: acabar com a interferência americana. Como? Tirando Fulgêncio Batista do poder com a Revolução. A guerrilha vai até 1959, quando Fulgêncio deixa o poder e Fidel, acompanhado por Che Guevara, assume o governo da Ilha.

Ao contrário do que muitos pensam – e outros querem fazer acreditar – Fidel Castro não é comunista. Na verdade, ele é “fidelista”. O comunismo russo foi o caminho que o general encontrou para fazer valer seus interesses, que tinham como principal objetivo manter seu país longe do alcance norte-americano sendo quase vizinho de Miami. Tanto é verdade que o comunismo acabou, e “Fidel” não…


O líder soviético Nikita Kruschev e o presidente
norte-americano John F. Kennedy

O fracasso da invasão americana à Baía dos Porcos em 1961 e, principalmente, a crise dos mísseis em 1962 – onde Kruschev (URSS) e Kennedy (EUA) jogaram com o destino do mundo e Cuba, no fim, serviu apenas como tabuleiro – explicam, de certa forma, como os Estados Unidos “permitiram” que um país menor que a Flórida (e, para efeito de comparação, do tamanho do Acre) se mantivesse “intacto”, ainda que abertamente contrário aos seus interesses.

É interessante destacar que Che Guevara, por sinal, não é o amigo de infância de Fidel que se pinta hoje. O argentino (de quem eu já falei aqui) ajudou Fidel e participou de guerras na África e na América do Sul sempre no seu idealista projeto pessoal de “fim do imperialismo”. Por outro lado, Che sim, acreditava no comunismo.

O fim dos anos 1980 marcam o fim da Guerra Fria com a “vitória” do capitalismo sobre o comunismo e o esfacelamento da União Soviética. A década de 1990 foi um período muito conturbado em Cuba, em que o país lutou interna e externamente para se manter “livre” e redefinir seu papel na nova geo-política internacional.

No fim da primeira década do século XXI, este papel ainda não está bem definido. Para Richard Gott, entretanto, ainda que Cuba nunca tenha sido um país “independente” (pois mudou das mãos espanholas para as americanas e para as russas), não haverá grandes mudanças na Ilha nos próximos anos. Fidel, no poder há 50 anos, há muito já não seria o dono do poder, mas um dos seus principais líderes e, mais do que isso, um grande símbolo cubano.

Segundo Gott, a mudança que todos esperam para o dia da morte de Fidel já aconteceu e, no melhor estilo “mudar não mudando”, ninguém notou. A questão é que, apesar de tudo, o povo cubano tem um imenso orgulho de sua história de lutas e revoluções. Isso, na opinião do autor de Cuba transcende o que olhando de fora pode parecer uma ditadura opressiva e manipuladora.

Quer dizer que Cuba é um país feliz? Uma utópica disneylândia? É claro que não. Mas a análise de que a Cuba atual serve, em certa medida, aos interesses de quem domina, lá dentro, o país hoje, não pode estar de toda errada.

Neste contexto, as recentemente anunciadas mudanças nas políticas norte-americanas em relação a Ilha são, ao meu ver, uma tentativa de “matar a revolução de sede”. Abrir o mercado de comunicação norte-americano à Cuba atende à premissa de que, depois dos descobrimentos na Idade Média (Espanha) e da guerra tecnológica do século XX (União Soviética), no novo século quem tem a informação tem o poder.

Já que não se pode obrigá-los, façamos com que eles queiram o que nós entendemos como ideal sócio-econômico. No fundo, no fundo… mudam as mãos, mas o pescoço é o mesmo.

2 comentários

  1. Ler este teu escrito… aliás ler os teus escritos… é sempre muito bom… são gostosos… claros… interessantes… acrescentam informação, beleza, emoção aos nossos dias… mas principalmente mata a saudade que sinto de falar, conversar com você… da troca de músicas… até dos longos silêncios… só que o silêncio que estou vivendo tá grande demais… Meu coração manda dizer que tá com saudades de você e te manda beijos…


  2. Olha hein, promessa é dívida. Se bem que com essas minhas atualizações semanais (e olhe lá), nem adianta ser leitor assíduo… rssss
    Mas obrigada pela visita. Eu de vez em quando espio o teu também. Na medida do possível, pq tu sabes, né? A gente chega tão moído da correria que dá uma preguiiiiça.
    Cara, o Radiohead foi animal. Uma das coisas mais legais que já fiz na vida. Agora tou torcendo pelo Metallica no Brasil. Mas deve acabar em marmelada de novo.
    Sobre o carro, foi uma indignação ferrada. Mas a vida continua, né? Agora já estou bem. E com uma boa novidade para compensar essa incomodação: fui contemplada :)
    Tou na caça de um novo lar já…
    Beijão e boa semana!



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