Posts de Abril, 2009

h1

Independência ou Cuba!

27/04/2009

Naquele dia eu saí de casa decidido: vou procurar um livro sobre Cuba! Não sobre Fidel, não sobre Che Guevara, sobre Cuba! Eu nasci já dentro da (época da) “revolução cubana”, mas tinha curiosidade de saber: afinal, o que é Cuba? Por que é tão importante? Fidel Castro, ok.. mas quem? Como? E, afinal.. eles foram ou não foram um estado norte-americano?

Encontrei. Nunca tinha ouvido falar, mas depois de procurar muito em toda a livraria (nos setores de “história”, “américa latina”, “literatura estrangeira”, “biografias”) eu encontrei “Cuba – Uma Nova História”, do jornalista inglês Richard Gott.

Fiquei bastante interessado no livro. Ele se propunha a analisar Cuba desde o descobrimento o início do século XXI. E, sendo um autor inglês, imaginei que não haveria “parcialidade” na análise.

Pra começar, como eu pensava, a colonização espanhola na Ilha sempre foi basicamente de exploração, como a portuguesa no Brasil. A diferença básica é que, por ser um país muito menor, não demorou e a “importação” de negros trouxe “problemas” pra minoria branca.

No fim do século XIX, um complexo jogo de interesses levou Cuba a uma posição de “semi-independência”. Eram independentes da Espanha, mas legalmente dependentes do governo norte-americano graças a uma emenda incluída, por Washington, na primeira constituição da república cubana.

A crise de 1929 também “ajudou”. As exportações de açúcar – tradicional monocultura cubana até então – caíram a quase zero, o que gerou diversos grupos armados de guerrilha que buscavam a “verdadeira liberdade”.

É neste contexto que, duas décadas depois “surge” Fidel Castro. A idéia básica era: acabar com a interferência americana. Como? Tirando Fulgêncio Batista do poder com a Revolução. A guerrilha vai até 1959, quando Fulgêncio deixa o poder e Fidel, acompanhado por Che Guevara, assume o governo da Ilha.

Ao contrário do que muitos pensam – e outros querem fazer acreditar – Fidel Castro não é comunista. Na verdade, ele é “fidelista”. O comunismo russo foi o caminho que o general encontrou para fazer valer seus interesses, que tinham como principal objetivo manter seu país longe do alcance norte-americano sendo quase vizinho de Miami. Tanto é verdade que o comunismo acabou, e “Fidel” não…


O líder soviético Nikita Kruschev e o presidente
norte-americano John F. Kennedy

O fracasso da invasão americana à Baía dos Porcos em 1961 e, principalmente, a crise dos mísseis em 1962 – onde Kruschev (URSS) e Kennedy (EUA) jogaram com o destino do mundo e Cuba, no fim, serviu apenas como tabuleiro – explicam, de certa forma, como os Estados Unidos “permitiram” que um país menor que a Flórida (e, para efeito de comparação, do tamanho do Acre) se mantivesse “intacto”, ainda que abertamente contrário aos seus interesses.

É interessante destacar que Che Guevara, por sinal, não é o amigo de infância de Fidel que se pinta hoje. O argentino (de quem eu já falei aqui) ajudou Fidel e participou de guerras na África e na América do Sul sempre no seu idealista projeto pessoal de “fim do imperialismo”. Por outro lado, Che sim, acreditava no comunismo.

O fim dos anos 1980 marcam o fim da Guerra Fria com a “vitória” do capitalismo sobre o comunismo e o esfacelamento da União Soviética. A década de 1990 foi um período muito conturbado em Cuba, em que o país lutou interna e externamente para se manter “livre” e redefinir seu papel na nova geo-política internacional.

No fim da primeira década do século XXI, este papel ainda não está bem definido. Para Richard Gott, entretanto, ainda que Cuba nunca tenha sido um país “independente” (pois mudou das mãos espanholas para as americanas e para as russas), não haverá grandes mudanças na Ilha nos próximos anos. Fidel, no poder há 50 anos, há muito já não seria o dono do poder, mas um dos seus principais líderes e, mais do que isso, um grande símbolo cubano.

Segundo Gott, a mudança que todos esperam para o dia da morte de Fidel já aconteceu e, no melhor estilo “mudar não mudando”, ninguém notou. A questão é que, apesar de tudo, o povo cubano tem um imenso orgulho de sua história de lutas e revoluções. Isso, na opinião do autor de Cuba transcende o que olhando de fora pode parecer uma ditadura opressiva e manipuladora.

Quer dizer que Cuba é um país feliz? Uma utópica disneylândia? É claro que não. Mas a análise de que a Cuba atual serve, em certa medida, aos interesses de quem domina, lá dentro, o país hoje, não pode estar de toda errada.

Neste contexto, as recentemente anunciadas mudanças nas políticas norte-americanas em relação a Ilha são, ao meu ver, uma tentativa de “matar a revolução de sede”. Abrir o mercado de comunicação norte-americano à Cuba atende à premissa de que, depois dos descobrimentos na Idade Média (Espanha) e da guerra tecnológica do século XX (União Soviética), no novo século quem tem a informação tem o poder.

Já que não se pode obrigá-los, façamos com que eles queiram o que nós entendemos como ideal sócio-econômico. No fundo, no fundo… mudam as mãos, mas o pescoço é o mesmo.

h1

Vale a pena ver… de novo???

24/04/2009

Alguém aí está acompanhando a nova novela das 7? Caras e bocas. É, como todas as novelas do horário, um enredo babaquinha com ganchos esdrúxulos como o pai que foi sem nunca ter sido, o macaco-pintor e as alpinistas sociais.

Essa novela é uma versão romântica e lúdica de uma novela que está passando no Brasil desde a chegada de Cabral, que está no ar desde que Santos Dummont inventou o avião, e que é ambientada em Brasília desde 21 de abril de 1960.

Caras-de-pau e Bocas-na-botija

A história é parecida. Essa fala de um monte de babacas que afirmam que são (honestos) sem nunca terem sido e, feito macacos, pintam e bordam nas costas do povo. Enquanto estes babacas ficam cada vez mais ricos, os coadjuvantes (que se multiplicaram exponencialmente ao longo do enredo) se descobrem cada vez mais cegos. Cegos, aliás, como a personagem que, na novela global, propõe um debate de inclusão social muito positivo. Seria essa metáfora proposital?

Nos capítulos mais recentes: mensalão, dólares na cueca, grampos da Abin, sanguessugas, moeda verde, cartões corporativos, satiagraha e, é claro, a farra das passagens aéreas. Tá desatualizado? Calma.. pelo jeito essa novela tá longe do fim, e a maior parte do enredo já não tem nenhuma importância…

Falemos, pois, do capítulo mais recente: a farra das passagens. De repente, ninguém sabe bem como, se “descobriu” que os nobres congressistas se esbaldam distribuindo passagens aéreas para familiares, conhecidos e (ora, por que não?) celebridades.

Ocorre que a cota de passagens a que cada um tem direito, prevista na noma do Congresso Nacional é pessoal e transferível, certo? Afinal, se a mesma norma se omite sobre como não se pode usar a tal cota, então vale tudo, certo? Hehe.. só pra variar, errado…

Primeiro ponto: a cota é impessoal. Ou seja, não é da pessoa do congressista, mas da pessoa enquanto congressista. Se por acaso o bom senso e o respeito aos eleitores e ao dinheiro público não for suficiente para o semancol, é só lembrar do famoso princípio da moralidade administrativa.

Diz o artigo 37 da Constituição Federal: A administração pública (…) de qualquer dos Poderes da União (…) obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Segundo este princípio, todos os servidores públicos (do presidente da República ao faxineiro de uma prefeitura de interior) devem primar pelo uso racional e específico do patrimônio público ou do que dele derivar.

Segundo: obviamente, é intransferível. Nós elegemos uma única pessoa para nos representar e ter direito às – ainda por cima muitas vezes questionáveis – benesses do cargo, e não toda a sua família ou a Adriane Galisteu.

Nessa vale até generalizar: Tanto o presidente do Congresso Nacional e líder governista Michel Temer (PMDB-SP) quanto o corregedor-geral da Câmara e líder oposicionista ACM Neto (DEM-BA) admitiram ter feito “mau uso” da tal cota de passagens. Ou seja: não escapa ninguém!! (infelizmente, nem nós…).

Alguém lembra da época em que o ex-presidente Itamar Franco queria ressucitar o Fusca? Diziam, as más e espirituosas línguas que o então presidente queria “ressucitar o Fusca por que não sabia dirigir Brasília”. Pois é…

Pensando bem… este escândalo das passagens aéreas foi um ás do autor dessa grande novela, apenas talvez mal explorado. Afinal, existia – com o perdão do trocadilho – uma enorme pista sobre este desfecho desde abril de 1960. Todo mundo lembra que Brasília foi uma cidade pré-desenhada, certo?

Eu imagino que, na idéia (nada) original, o último capítulo seria assim:

Estourado o escândalo, o povo inerte se revolta silenciosamente, com aquele clima de “não vai mudar mesmo…”. Enquanto isso, a cena final começa dentro da Câmara enquanto os nobres congressistas (os tais babacas) iniciam mais uma votação de prioridade incerta e intenções não-sabidas. Baixa o som e a imagem começa a se afastar do plenário, saindo da janela da Câmara e subindo. É noite, e Brasília está iluminada.

A câmera continua seu movimento “pra trás”, se afastando cada vez mais. No final, vê-se a cidade da janela de um avião.. e qual não é a surpresa quando se tem a visão completa da cidade…

Ué.. queria que tivesse formato de quê? De um ônibus?

FIM
(Ou ao menos, deveria ser…)

h1

Como vovó já dizia..

21/04/2009

Por mais otimista que eu tente ser. Por mais “contextual” e “internacionalista” que seja qualquer análise. Por mais coisas boas que o Brasil tenha para oferecer ao próprio Brasil e aos brasileiros, uma coisa é fato. Tá cada vez mais difícil acreditar neste país.


Será?

A corrupção é endêmica. Por mais que a corrupção seja como a dengue – e jamais estaremos totalmente livres de nenhuma das duas -, existe um limite pra tudo, né? Ao menos eu espero que sim…

Apesar de este blog ter nascido já dentro do governo Lula, e eu nunca ter apoiado o PT, eu mesmo escrevi aqui, mais de uma vez, sobre a esperança que eu tinha no significado da vitória de Lula em 2002. Mas.. o que dizer agora…  ???

O “mensalão”, no fim das contas, foi apenas um jogo de cena poderoso. Roberto Jefferson, que foi traído e tentou sair como herói, acabou inocentando o presidente. Como se fosse possível tudo aquilo sem que ele soubesse. Até talvez se possa questionar se eram ordens dele, mas é impossível dizer que ele não tivesse ciência de tudo e, portanto, não compactuasse.

(off: Dos 594 potencialmente envolvidos (Congresso Nacional), apenas 40 foram processados pelo STF, sendo que vários destes processos já resultaram em inocência ou arquivamento por “falta de provas”).

Praia, carnaval, futebol. Música, gastronomia, natureza. Dimensões continentais, democracia, paz. São várias as características positivas do Brasil. Coisas boas, algumas de uma forma ou de outra arduamente conquistadas, outras privilégios naturais.

Mas aí.. o povo elege democraticamente a mesma bandidagem há 20 anos. Como bem disse o repórter do CQC na semana passada, nossos políticos são como petróleo: “fósseis não-renováveis“.

E eu volto a perguntar: O que dizer sobre isso?


Zé Ramalho – O meu país (letra)

Essa música do Zé Ramalho diz muita coisa. Ele ressalta os aspectos bons do país, mas também não deixa esquecer os ruins. A fome, a pobreza, a saúde pública, a insegurança e, principalmente, o cinismo dos nossos governantes.

Conforme a música vai adiante, a gente se pergunta: “Pelo amor de Deus, o que eu ainda estou fazendo aqui?“. É uma música belíssima, crua mas muito brasileira. Um protesto leve, aparentemente silencioso mas muito profundo.

Para piorar a situação, os problemas enumerados por Zé Ramalho não vêm de hoje. Em 1987 a Legião Urbana lançava o álbum “Que país é este?”, e a música-título acabaria se tornando um dos hinos de toda uma geração. Regravada por diversas outras bandas, na sutileza poética de Renato Russo, a canção passa uma mensagem muito clara de desânimo e indignação:


Legião Urbana – Que país é este? (letra)

Então, quem pode nos dar a solução? Quem sabe se seguirmos o conselho do grande Raul Seixas e alugarmos tudo pros estrangeiros? Afinal, são várias as qualidades do país que certamente interessariam aos nossos prováveis “locatários”:


Raul Seixas – Aluga-se (letra) (obs: não, a música não é dos Titãs) 

É… é uma idéia… Só que aí, talvez a versão correta do símbolo do atual governo seja este:


Aos desavisados: há uma pequena diferença entre os dois símboLos

h1

O poeta e a cidade (Fim)

18/04/2009

Encerrando a história contada aqui…

Cai a tarde e, antes de voltar para o Hotel Majestic, o poeta resolve ir até o Gasômetro. Atravessa mais uma vez o Mercado Público e, do outro lado, encontra, novamente, o Muro da Mauá.

Quintana morava há pouco tempo em Porto Alegre quando, no início da década de 1940, uma enchente no Rio Guaíba invadiu o centro da cidade. Ironicamente, ainda que por poucos dias, a Rua da Praia voltou a estar na beira do rio. Para evitar novas enchentes o governo municipal constrói o chamado “muro da Mauá”, chamado assim por causa da avenida que o acompanha. Nunca mais se soube de subidas consideráveis do leito do rio. O muro, entretanto, ainda peca por separar o centro da cidade de seu berço, por onde há séculos chegaram os açorianos.

Os “triângulos” acima do muro são tudo o que é possível ver do Cais do Porto. Para ver mais ou mesmo admirar o rio e o horizonte, só se o poeta for a lugares mais altos como o seu quarto no Majestic.

Ao final do muro, a Usina do Gasômetro. Outrora esta foi uma usina de energia termoelétrica que abastecia toda a cidade. Hoje é um espaço cultural, e um ótimo local para se admirar o pôr-do-sol no rio

Quando o sol começa a se por e ganhar seus tons avermelhados sob o céu cada vez mais escuro, Quintana, sentado à beira do rio sorri mais uma vez, pois apenas um poeta pode entender a beleza que existe nas pequenas coisas, nos detalhes e nos dias mais simples. Mal sabe o poeta que, anos depois da sua morte, ele próprio faria parte da paisagem que tanto admirou naquele e em tantos outros domingos primaveris…

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Mário Quintana 

FIM

 

Leia também
O poeta e a cidade (I)
O poeta e a cidade (II)
O poeta e a cidade (III)
O poeta e a cidade (IV)
O poeta e a cidade (V)

Aqui termina a poética aventura de Mario Quintana pelas ruas do centro de Porto Alegre. O que um dia pretendeu ser uma matéria para jornal, acabou virando um pequeno conto em homenagem a minha cidade e um de seus maiores poetas. A partir de hoje o conto estará publicado na íntegra aqui, com um link fixo no menu à direita. Obrigado pela atenção!

h1

A festa da música tupiniquim

15/04/2009

Pode não parecer, mas é uma biografia. Conta a história de um certo garoto que, no Rio de Janeiro do fim dos anos 1950, não queria saber de música. A vida para ele era praia, colégio e futebol. Até que um dia… João Gilberto.

O garoto, por ser de uma família envolvida no meio artístico, teve a oportunidade de conhecer e vivenciar de perto grande parte das transformações musicais que, de uma forma ou de outra, o lançamento gilbertiano ”Chega de Saudade”, desencadeou.

Muitas emoções. Apesar de o garoto ser o protagonista da história, o leitor corre o risco de esquecê-lo durante boa parte do enredo. Não por que seja mal escrito, mas é que o livro conta desde a rivalidade entre os bossanovistas (João Gilberto, Nara Leão, Tom Jobim, Vinícius de Moraes) e a jovem guarda (Roberto e Erasmo, Wanderléia, Jerry Adriani) nos anos 1960 até o Rock In Rio 1985, passando pela fase áurea dos Festivais da Excelsior, depois da Record e, é claro, pelo Internacional da Canção.

Nelson Motta – o tal garoto –  fala, em Noites Tropicais, sobre a honra de ter sido um privilegiado coadjuvante – e, em alguns momentos, personagem – da incrível história da música brasileira.

Impossível resumir. Motta teve, por exemplo, a rara oportunidade de presenciar e vivenciar o surgimento, a explosão e a carreira de então desconhecidos como Elis Regina e Jair Rodrigues, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil,  Raul Seixas e Paulo Coelho, Jorge Benjor, Tim Maia, Evandro Mesquita e a Blitz, Lobão, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Kid Abelha, Cazuza e o Barão Vermelho, Marina Lima, Lulu Santos e Marisa Monte.

Além disso, o jornalista e produtor musical Nelson Motta participou ativamente de grandes momentos da música brasileira como os Festivais nos anos 1960, da era disco no fim da década de 1970 (tendo inclusive criado, ainda que involuntariamente, as Frenéticas) e o Rock In Rio.

Algumas passagens tornam a leitura ainda mais especial . Como exemplo, o dia em que um jovem e desconhecido Roberto Carlos foi, com o seu amigo Erasmo, até o estúdio da RCA para pedir para gravar uma música desconhecida chamada “Marina” e, quem sabe, um disco. No elevador da gravadora eles encontram o já consagrado Cauby Peixoto que, entre afagos e gentilezas, conta para os dois meninos em primeira mão que está subindo para gravar uma certa música, ainda desconhecida no Brasil. Incrível coincidência, Cauby gravaria exatamente “Marina”. Roberto e Erasmo nem saíram do elevador. Retornaram à rua arrasados e, se não fossem reconhecidamente talentosos, o Brasil teria perdido dois de seus nomes musicalmente mais importantes e mais influentes.

Tim Maia é um caso a parte. O próprio “Nelsomotta” (como o cantor o chamava) escreveu, anos depois, uma biografia do rei do soul brasileiro. Suas histórias, entretanto, são incríveis. Numa delas, que mostra bem a doçura e a irreverência de Tim Maia, os dois conversavam sobre Rita Lee, que andava meio mal depois do segundo divórcio. O gordo liga pra cantora e anuncia:

“Olha aqui ô Ritalee, eu já aguentei cinco anos de “Administração Arnaldo Baptista”, dez anos de “Administração Roberto de Carvalho” e estou te ligando para dizer que…

Fez uma pausa e berrou ao telefone:

- I Love You!!!”

Eu li o livro duas vezes. São tantos detalhes, tantas histórias, tantas surpresas que eu achei que, para escrever alguma coisa que fizesse sentido e fosse suficientemente ilustrativa da riqueza da obra era melhor começar de novo. E valeu a pena.
 
O nome “Noites Tropicais” também faz todo o sentido. Acho que transmite, ao mesmo tempo, a idéia de noite – que, neste caso, seria a alegria, as festas, a era disco – e a tropicalidade – que, numa idéia de simbologia brasileira, seria a grande salada de frutas que é a diversidade da nossa música nacional. Do carnaval ao baião; do rock à bossa nova; do tropicalismo ao soul. Tudo muito expressivo de um país em eterna ebulição social, cultural e política.

Esta tudo lá, num livro leve, bem humorado, bem escrito e muito musical. Como diz o texto na contracapa do livro: “Gênios e pilantras. Roqueiros e sambistas. Pirados, friques e doidões. Um elenco de estrelas numa trama de sucessos e fracassos, de lágrimas e gargalhadas, entre sexo, drogas e MPB.

h1

Liverpool (1960´s) – Porto Alegre (2009)

12/04/2009

Eu já escrevi aqui sobre o show do Clapton que eu fui em 2001. Entre as várias razões para eu ir àquele show estava o fato de que o ”Deus da guitarra” tinha convivido com os Beatles, tendo inclusive sido eternizado em uma de suas gravações “oficiais”.

Pois eis que, inesperadamente, no último final de semana de março de 2009 me surgiu uma oportunidade de ficar ainda mais próximo da “beatlemania”. Se não posso voltar no tempo, tenho que aproveitar as oportunidades que o tempo me dá ao me visitar, certo?

“The Beats” é uma banda argentina cover dos Beatles. Como muitas que existem por aí, é verdade, mas como poucas. Eles são orgulhosamente “xerox” dos fab-fours. Venceram um concurso internacional de bandas-sósia realizado em Liverpool, já tendo inclusive gravado no Abbey Road com a equipe de George Martin.

Um é sósia do John, outro do George, o terceiro do Ringo. O do Paul, por sinal, é canhoto como o próprio. Existe um quinto elemento que faz, nos teclados, os efeitos sonoros que não eram possíveis de se fazer ao vivo nos anos 1960.

O show é incrível. As músicas simplesmente idênticas às gravações. Na verdade, quem vai no show está pagando para ver os Beatles, para ter a oportunidade de ver um show de 45 anos atrás ao vivo. Para isso, a semelhança física e o talento dos “The Beats” são fundamentais.

Os detalhes da produção também são ótimos. Eles trocam de roupa umas cinco ou seis vezes durante o show. No início, todos de branco para cantar “All you need is love” (como na gravação que eu também já comentei aqui). Mais tarde, roupas de couro preto para cantar a fase inicial do “ié ié ié”. Em seguida, roupas psicodelicamente coloridas para a fase “Sargeant Peppers” (acima) além da fase dos ternos (ao lado) e, finalmente, roupas mais despojadas para o período final da banda.

Ponto para os argentinos também por não se resumir às canções mais famosas do quarteto de Liverpool. “I me mine” é um belo exemplo de músicas nem tão conhecidas (ou simplesmente desconhecidas) do grande público e que marcaram presença no Teatro do Sesi.

O show do “The Beats”, por si só, vale muito a pena. Foi a primeira vez que eu fui (mas não a primeira vez deles em Porto Alegre) e, se eles voltarem eu certamente vou de novo!!

E o que este show tinha de especial? Pete Best!

Para os desavisados: antes do sucesso, os Beatles (que, aliás, nem tinham esse nome) eram John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Stuart Sutcliffe e Pete Best. Stuart deixou a banda alguns anos antes do estrelato (e acabou morrendo antes disso também) mas Pete Best, o baterista, foi substituído no dia da gravação do primeiro disco (Please Please Me) e substituído, é claro, por Ringo Starr.

Os Beatles antes da fama. Pete Best é o primeiro da esquerda

Pois Pete Best, em pessoa, estava no show. É claro que, com 70 anos, ele não tocaria o show inteiro (até por que seu substituto, Ringo Starr, “estava” presente). Mesmo assim, Pete contou a sua história, e a história dos Beatles pré-sucesso. Como foi bem lembrado não me recordo por quem, dos que viveram aquela fase pré-sucesso nas noites de Hamburgo, apenas ele e McCartney estão vivos para contar.

Ele tocou duas músicas dos primórdios. De uma época em que os próprios Beatles faziam mais covers do que qualquer outra coisa.

A primeira música foi My Bonnie. Esta os Beatles gravaram como banda de apoio do então famoso cantor inglês Tony Sheridan. A canção, obviamente, não é deles, mas é a versão mais famosa até hoje.

A segunda música é um dos grandes clássicos do nascimento do rock´n roll. Criada por Chuck Berry, “Rock´n Roll Music” tem o ritmo, o clima e a temperatura da virada dos anos 1950 para 1960.


Os dois vídeos são do show em Porto Alegre 

Eu fui ao show com o meu pai. Tendo herdado (e superado, acredito, hehehe) o gosto por Beatles dele, nada mais justo. Apesar de a banda não existir mais há quase 40 anos, vale destacar que a maioria do público tinha por volta de 30 anos, ou seja, nunca viu o quarteto original de perto.

Isso, no mínimo, é um atestado da qualidade, do talento e da eternidade das músicas dos Beatles. Quer fazer um teste?

Responda: Que banda de hoje vai ter um grupo sósia em 2050 cujos shows vão lotar em todo o mundo com um público que, basicamente, ainda não nasceu?

É.. eu também não sei…