Posts de Agosto, 2008

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O poeta e a cidade (I)

31/08/2008

Esta é a história do dia em que Mário Quintana resolveu caminhar pelo centro de Porto Alegre. É um pequeno exercício literário, meio poético, meio dissertativo. Em seis partes, é uma pequena homenagem a um dos maiores poetas gaúchos e a querida Porto Alegre.

Chegando ao fim da primeira década do século 21, Porto Alegre beira a marca de 1,5 milhão de habitantes. Se não é mais aquela bucólica e pacata cidade dos anos 1950, ainda não é uma megalópole como a enlouquecida São Paulo.

Com quase 180 anos de emancipação, a capital gaúcha ainda guarda fortes traços da colonização açoriana que a povoou, no século 18. Monumentos, prédios históricos e algumas ruas mantêm a nostalgia de um tempo que a imponente capital gaúcha esconde dos que não a observam com atenção.

São vários os personagens que marcaram esta história. Na revolução farroupilha, que celebrará seu 173º aniversário no próximo dia 20, Bento Gonçalves, Antonio Souza Netto e Corte Real foram alguns de seus maiores heróis. No início da república, Julio de Castilhos, Borges de Medeiros e, é claro, Getúlio Vargas são seus nomes mais importantes.

Durante o primeiro e longo período de Getúlio na presidência da República, aliás, Porto Alegre recebeu um morador que também marcaria a sua história na cidade. De Alegrete, na fronteira com a Argentina, chegava, nos anos 30, o então jovem poeta Mário de Miranda Quintana.

Jornalista de um tempo romântico em que bastava querer para trabalhar em jornais, Quintana trabalhou em periódicos porto-alegrenses como “O Estado do Rio Grande” (já inativo), e o “Correio do Povo”.

Durante 12 anos – do final dos anos 60 até 1980 – morou no Hotel Majestic. Em 1983 a Assembléia Legislativa do Estado denomina oficialmente o prédio, já tombado pelo patrimônio histórico, de “Casa de Cultura Mário Quintana”. Localizado na Rua da Praia, no centro da cidade, o hotel era como um refúgio para o poeta. Ali era o seu esconderijo, o seu refúgio, o seu recanto.

Era apenas mais um domingo de outubro, mas Quintana resolveu sair para caminhar. Além de aproveitar a Feira do Livro, que tanto amava, resolvera, como sempre fazia, observar com calma os detalhes da cidade que adotou. Desceu do quarto com roupas leves e, a caminho da Rua da Praia, pensou em quanta coisa já acontecera naquela parte da cidade…

Leia também
O poeta e a cidade (II)
O poeta e a cidade (III)
O poeta e a cidade (IV)
O poeta e a cidade (V)
O poeta e a cidade (fim)
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A China e o dia 0,125

09/08/2008

Quem me conhece sabe que eu adoro coincidências matemáticas. Nem sempre elas têm alguma utilidade, ou às vezes, sua utilidade depende de quem lê e não delas em si.

Ontem por exemplo, dia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Oito de agosto de 2008 ou, escrevendo em números, 08/08/08.

É uma particularidade do início do século, é claro. Ano passado nós tivemos 07/07/07, antes 06/06/06, e assim sucessivamente até o primeiro dia do terceiro milênio da era Cristã, que foi 01/01/01. Ainda teremos mais quatro coincidências destas até o dia 12/12/12.

E daí? Bom.. daí que pra mim é apenas curioso… mas vai perguntar pros chineses..

Eu nem sei bem a simbologia do número oito para eles, mas todos sabem que a cultura milenar chinesa é repleta de simbologia. Afinal, não foi por acaso que, já que realizariam os jogos olímpicos de 2008, eles escolheram o dia 8 de agosto, às 08:08 da noite para iniciar a cerimônia de abertura, ou foi?

Não, não foi. Para quem tem memória curta, os jogos olímpicos geralmente estão terminando por volta de 8 de agosto.

Fui pesquisar e descobri que nos jogos de Barcelona (1992), por exemplo, o Brasil conquistou o ouro olímpico no vôlei masculino pela primeira vez, contra a Holanda. Era a final de um esporte coletivo, disputada no dia 9 de agosto.

Mas então.. por que os chineses escolheram o dia 08/08/08? Pelo pouco que consegui pesquisar, é o número da sorte e da sabedoria. No meu modo de entender, foi uma forma de os chineses darem as boas vindas ao mundo dentro do espírito olímpico de paz e harmonia. Conceitos, inclusive, muito presentes na cultura chinesa.

A China, aliás, é um assunto sempre presente. A forte expansão da sua economia na última década está trazendo cada vez mais essa grande nação “comunista” para o mundo capitalista, já rivalizando em muitos aspectos com os Estados Unidos, por exemplo.

A imagem que se tem no Brasil, é de uma China com umas poucas cidades modernas, mas muita pobreza, muito atraso e, principalmente, uma ferrenha “feia, boba e chata” ditadura comunista que impede que ela seja modelo para nós.

Ok, politicamente a China não é nenhum exemplo, todos sabemos disso. Mas culturalmente, pobres de nós, mortais ocidentais. Enquanto nós nos preocupamos com 500 anos de colonização, e falamos em Império brasileiro como se fosse algo ocorrido há muitos anos, na China se fala de dois mil, três mil anos.

Eu sempre fiquei pensando.. A nossa história começa em 1500, ok? Ela tem um começo.. mas e como deve ser aprender história na Itália? E na China, então? Sim, por que enquanto os “europeus” estavam falando de Império Romano, etruscos e gregos… os chineses estavam lá, com papel, porcelana, pólvora e uma série de outras coisas que só seriam “criadas” ou “descobertas” do lado de cá séculos mais tarde, e com um estardalhaço que tu não imagina…

É claro que não existe apenas uma cultura chinesa. A China é um país que já passou por diversas dinastias, impérios, reinados, feudos, conquistas, reconquistas, guerras… é, na verdade, uma grande colcha de retalhos cultural… Mas o que os mantém unidos? O governo comunista? Talvez.. mas a grande arma deste governo passa, sem dúvida, pela propagação de uma cultura, de uma idéia de unidade, de um pensamento de colocar o coletivo acima do individual.

Se é verdade que este pensamento às vezes é exagerado em regimes totalitários, é certamente o que falta para os brasileiros. Enquanto, no fundo parece que nós continuamos achando o que vem de fora melhor, na China eles não aceitam o que vem de fora, e isto é, em grande parte, o que os está tornando cada vez mais fortes.

Enfim, existem certas coisas que os ocidentais se orgulham de fazer, comemoram como grandes feitos, mas os chineses fazem há milênios, e com os olhos fechados.